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Macacos e homens
Lucia Sauerbronn
Na Tailândia, os plantadores de coco usam macacos para fazer a colheita. Eles dão conta do recado direitinho e nem precisam de ferramentas. Em troca de algumas bananas, giram o fruto até quebrar a haste e ainda se divertem atirando os cocos lá de cima. Parece que a prática é antiga. E tão eficiente que os agricultores decidiram utilizar a técnica para colher mangas, mas não deu muito certo.
Delicadas, as mangas devem ser retiradas no ponto certo para amadurecer e, se atiradas do alto, ficam imprestáveis para o consumo. Como a tarefa é mais complexa, o pagamento com bananas não fez o mesmo efeito. Quando um macaco mais esperto conseguiu colher uma manga sem estragar, o plantador ficou tão feliz que, para comemorar, abraçou o bicho. Imediatamente, o macaco subiu na árvore e pegou outro fruto – do jeitinho do primeiro – e voltou para buscar um novo abraço.
Hoje, a produção de mangas da Tailândia é colhida em troca de abraços e todos estão rindo à toa. Macaco não quer só comida. Também quer afeto, o que faz todo sentido.
Uma vez assisti na TV um programa científico que mostrava uma experiência com macaquinhos. Havia três grupos deles. No primeiro, os filhotes recém-nascidos foram deixados com a mãe. No segundo, a mãe era substituída por uma espécie de robô de metal. Os do terceiro grupo viviam sozinhos, alimentados por uma mamadeira presa às grades. Os macaquinhos criados com a mãe eram sadios e alegres. Os do segundo grupo cresceram enroscadinhos entre si e grudados no pescoço do robô. Já os que só receberam alimento tornaram-se solitários, tristes e agressivos. Ficaram doentes e, depois de algumas semanas, nenhum sobreviveu.
Quando veja crianças vendendo balas ou pedindo dinheiro nos faróis, acredito que eles acabam, de uma forma ou de outra, se alimentando. Por uma questão pessoal, ao invés de dar uns trocados, prefiro conversar. Pergunto sobre a escola, a professora, de que matérias mais gostam. Elas abrem um largo sorriso. Logo contam se preferem matemática ou português e até confessam o sonho de ser médicos ou professores quando crescerem. Se vão mal na escola, falo da importância de estudar e ser alguém no futuro.
Meus amigos dizem que me arrisco. Pode ser. Mas essa relação rápida e afetiva com crianças que nunca vi faz bem tanto a mim quanto a eles. Conversamos como bons amigos até o farol abrir. Depois me dão tchauzinho, felizes como se tivessem sido abraçados. Nunca recebi uma resposta agressiva, nenhum deles insistiu para eu comprar balas nem exigiu dinheiro.
Certa vez, num congestionamento brabo, bati um longo papo com dois meninos muito simpáticos e espertos. Como perderam comigo muito tempo e algumas vendas, resolvi comprar algumas balas. Só que eu não tinha trocado. Para me justificar, mostrei a carteira com a nota de cinquenta. Levei a maior bronca! Os dois me explicaram o perigo de abrir a carteira no semáforo: era roubo na certa. Mandaram eu tomar cuidado e me deram as balas de presente. Não tive coragem de rejeitar. Saí de lá com a sensação de que devia a eles muito mais do que um punhado de caramelos.
Dizem que os seres humanos são meio aparentados com os macacos. Não sei quem puxou a quem, mas nós também somos capazes de qualquer coisa por um chamego. Mesmo alimentados, bebês choram pedindo colo. Maiorzinhos, quando não têm atenção, fazem birra. Adolescentes, fazem barulho. Nos adultos, solidão leva à depressão. Se comida fosse tudo, pessoas que fazem três refeições por dia seriam saudáveis, equilibradas e felizes. Só os famintos cometeriam crimes, brigariam no trânsito ou teriam problemas emocionais.
Os macacos é que estão certos. Na maioria das vezes, tudo o que precisamos é de um abraço. Artigo que anda bem mais raro que um prato de comida.
Nota: Esta crônica já foi publicada em outubro de 2.000. Os leitores que me desculpem, mas há momentos em que tudo o que precisamos é de um abraço.
criado por sauerb
10:31:30