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cronicas da jornalista Lucia Sauerbronnn. Relatos divertidos do quotidiano.

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Terra Blog

30.09.08

Mulheres adulteradas

Mulheres adulteradas
Lucia Sauerbronn
Perdi um tempão limpando a caixa de e-mails. Tá certo. Tem coisa legal. Mais ou menos uns três por cento. O resto é lixo eletrônico. Odeio aqueles com letrinhas que caem em conta-gotas. Fico socando a tecla enter para ver se a frase aparece de uma vez. Não resolve nada. Sou obrigada a ler no ritmo que o outro quer. É a ditadura do e-mail!!! Já pensei em entupir a caixa de mensagens desses chatos de plantão com mensagens mais chatas ainda. Mas vai que eles gostem...
Outra coisa que me deixa possessa são aquelas ligações nos momentos mais impróprios para oferecer serviços e produtos que não, eu não desejo, não preciso e tenho raiva de quem... Enfim. Para evitar um ataque de nervos, passei a pedir o telefone do inconveniente e aviso que ligo mais tarde. Sabe o que eles respondem? Que não estão autorizados a receber ligações. E quem foi que deu autorização de ligar para mim?
Pior é tentar falar com uma dessas centrais de atendimento eletrônico. Depois de digitar até o número da carteira de identidade da minha mãe, eles atendem e perguntam tudo de novo. Cáspite! Eu não acabei de fornecer até a data de nascimento do papagaio?
E o trânsito? E o trânsito? Você lá, andando sossegada e tem sempre um perturbado na sua frente. Estaciona em lugar proibido, anda a 20 por hora, bate papo no celular. Isso quando não aparece um maluco de motocicleta achando que tem prioridade de ambulância.
O elevador é outra praga. Nunca está lá quando eu chego. Se estou em cima, ele está embaixo. Se estou embaixo, ele está em cima. Parece que adivinha que sou eu.
Agora, o que me tira mesmo do sério é aquela maldita torneira pingando. Noite e dia, dia e noite. Cansei de pedir para o meu marido chamar o encanador. Mas ele não está nem aí se seu não consigo conviver com aquele barulhinho irritante. Se eu fosse namorada, não mulher, a porcaria da torneira já estaria consertada faz tempo. Ainda se ele soubesse trocar o diabo do courinho, mas quê!, ele não troca uma lâmpada em casa! Tenho eu que subir na escada, com risco de cair e me machucar toda. Quem sabe, sofrer traumatismo craniano e passar a vida entrevada numa cama de hospital. Ou até morrer! Ah, mas vai ver que é isso o que ele quer, seria um jeito bem fácil de se livrar de mim. Deve estar cansado da minha cara.
No mínimo, o mal-agradecido tem outra. Bem mais nova. Ele pensa que só eu envelheço? Será que não usa espelho? No começo de casados, era uma maravilha. Benzinho para cá, presentinho para lá. Um tal de telefonar o dia inteiro só para ouvir a minha voz e dizer que não via a hora de me encontrar. Agora? Chega em casa, dá um beijinho mixuruca e corre amassar o traseiro naquele maldito computador. Diz que quer ler as últimas notícias e ver o resultado do futebol.
Sei. Vai ver tem uma namorada virtual. Já tentei pegar em flagra um milhão de vezes, mas o sem-vergonha deve ter um jeito de fazer a tela mudar para a tabela do campeonato brasileiro quando me aproximo. Como é que ele faz uma coisa dessas comigo? Justo eu, que viro gato e sapato para agradar? Ele não tem uma camisa sem botão, nunca deixo faltar o suco que ele gosta, sempre que posso vou para a cozinha preparar bolo de chocolate, uma de suas paixões. Além da daquela vagabunda virtual, é claro, eu sou mesmo uma idiota.
Mas de hoje não passa. Ele tem que me contar tudo. Tudinho. Tim-tim por tim-tim. Porque ai, se eu descubro sozinha! Aí é que ele vai saber aonde a porca torce o rabo. A porca é ela, claro. Quebro a casa inteira, era só o que faltava, aquelazinha morando aqui dentro, aproveitando no bem-bom todas as coisas que levamos anos para construir. Veja do que uma mulher é capaz, destruir uma família. Porque vou pedir o divórcio.
Se ele não quer ficar comigo, que não fique. Nós não nascemos grudados! Já disse um milhão de vezes. Pego minhas coisas e sumo da poeira, ele vai ver só. Usou e abusou dos melhores anos da minha vida. Mas ainda não sou de jogar fora. Deve ter alguém por aí disposto a me amar. Tem sim. Alguém romântico, que mande flores, dê presentinhos. E um pouco de colo quando eu precisar. Porque ele nunca mais falou que me ama. Se não fala é porque não ama mesmo. Acho que nunca amou. É que é uma moleza, ter a mulherzinha em casa e sair por aí tendo casos virtuais, se é que são virtuais, o que duvido. Aliás, nem duvido mais.

Já disse tudo isso para ele no mês passado. E em todos os meses anteriores. Mas eu sou boba. Falo, falo e depois deixo para lá. Mas não dessa vez. Ah, não. Sou até capaz de me matar. Mas imagine se vai sair barato: vou escrever uma carta bem comprida, dizendo tudo o que sei e ele pensa que não sei, que é para ele ter que carregar o remorso para o resto da vida. Digo isso para ele. Já disse mil vezes.
Sabe o que ele responde? Nada. Não responde. Fica só ouvindo, ou finjindo que ouve, enquanto assiste ao telejornal.
E basta a moça encerrar o telejornal com um boa noite que ele repete sempre a mesma frase:
Então, meu bem, vamos dormir, que amanhã a TPM passa.
Crônica publicada na Coop Revista - Março / 2.007

23.09.08

Isso é Brasil

Isso é Brasil
Lucia Sauerbronn
O Japonês da tinturaria batia ponto toda terça-feira de manhã lá em casa. Tivesse ou não roupa para lavar. O Português da padaria era legal comigo. Gostava de conversar enquanto cuidava do caixa e sempre me dava umas balinhas de mel, que eu adorava.
Do outro lado da rua, tinha o Judeu da sapataria, que um dia me salvou das rodas de um carro. Ele teve câncer de garganta, por isso vendeu a sapataria para o Turco, que era chaveiro.
Quando faltava alguma coisa na cozinha, minha mãe mandava eu dar um pulo na mercearia do Italiano. Se sobrasse troco, às vezes me deixava comer o pastel do Chinês ou uma esfiha no Árabe. Se desse sorte, talvez ainda sobrasse um dinheirinho para me lambuzar com uma torta de creme na doceria do Alemão.
Eu costumava brincar na casa das Espanholinhas. Elas moravam em cima da loja de tecidos dos pais. Na mesma rua ficava a borracharia do Negão, cuja filha era imbatível nas partidas de vôlei. Eu não desgrudava da Japa, dona de uns lindos olhos puxados. A Índia, que nunca mais vi, também estudou comigo e deve ter se tornado uma morena de cair o queixo.
Mais tarde casei com o Ruivo. Quando meus filhos nasceram com a cara do pai, passei a ser apontada como a mãe dos Enferrujadinhos. Criança, eu era a Branca de Neve. Por sinal, o mesmo apelido do melhor jogador de pelada da rua. Por motivos opostos.
Todos tivemos amigos conhecidos por Baixinho, Boca, Bola 7, Girafa, Cabeção, Bolota, Dumbo, Tampa, Galocha, Pé Grande. As relações eram mais simples. Ninguém ficava chateado por ser identificado pela origem, cor, característica física, personalidade ou profissão. Apelidos eram comuns. Não causavam trauma nem mágoa. Não embutiam maldade nem preconceito.
Hoje tudo isso seria absurdo. Politicamente incorreto. É claro que acho justo tomar cuidado com as palavras para não ferir ninguém. Mas palavras são menos perigosas do que pensamentos e atitudes.
Preconceito é impedir as pessoas de viver onde elas desejam, circular por onde bem entenderem, ter a profissão que escolherem e os mesmos direitos de qualquer cidadão.
Nos anos 70, era moda ter o corpo bronzeado. As meninas passavam horas tostando no sol. Eu poderia considerar uma ofensa ser chamada de Branca de Neve. Mas eu era branca como a neve! Sobrevivi ao apelido, sem ter vergonha de mim mesma.
Eu me sentiria ofendida, sim, se, ao invés de um curto e auto-explicativo Branca de Neve, passasse a ser chamada de euro-descendente. Pura hipocrisia. A expressão embute a intenção de não ofender. E isso é que é prá lá de preconceituoso.
O Brasil foi formado por portugueses, índios e escravos. No século passado, recebeu, de braços abertos, imigrantes de muitas outras origens. Convivemos com as diferenças. Aprendemos com elas e fomos esquecendo equívocos de um passado do qual não podemos ser culpados e que cada vez fazem menos sentido.
Em muitos países, o preconceito de raça e credo gera ódio, humilhação, disputas e guerras que não têm mais fim. Aqui as raças se misturaram. Em breve seremos todos mulatos. Brasileiros, graças a Deus.

Crônica publicada na Coop Revista - Abril / 2.007

15.09.08

TUDO PELO VISUAL

TUDO PELO VISUAL
Lucia Sauerbronn
Toda mulher sabe que, a partir de uma certa idade, o espelho é seu pior inimigo. O meu, que não é mágico como o da Rainha Má da Branca de Neve, anda mostrando que os potes de creme já não surtem o efeito desejado contra a lei da gravidade, que ensina que tudo cai.
Antes de recorrer a uma plástica radical, encontrei numa revista a solução menos drástica para atenuar minhas marquinhas impertinentes. A partir dos estudos de Leonardo Da Vinci sobre anatomia, uma americana desenvolveu uma série de exercícios para amenizar os traços do tempo, com o sugestivo nome de ginástica facial. Que maravilha! Nem precisaria ir à academia, dava para fazer os exercícios em casa mesmo.
Segundo o texto, o objetivo da ginástica facial é fortalecer e tonificar os 33 músculos do rosto, que, relaxados, tornam a expressão mais suave. Bastava completar o programa de rejuvenescimento com o cuidado de não enrugar a testa ao ficar preocupada, não franzir os olhos diante da luz e procurar sorrir apenas levemente, mesmo diante da piada mais engraçada. Eureka! Aquela matéria desvendava um enigma que há cinco séculos vinha intrigando estudiosos das Artes e Ciências: o sorriso da Mona Lisa. Ao ser imortalizada na tela pelo velho Leo, Gioconda apenas obedecia aos seus ensinamentos: para ser eternamente jovem é preciso manter a expressão calma e serena.
Entusiasmada com a descoberta, segui lendo a matéria, procurando diante do espelho memorizar cada exercício: “Para prevenir e corrigir pálpebras inchadas, suavizar pés-de-galinha e evitar a retração do globo ocular, erga as sobrancelhas, arregalando os olhos até ver o branco acima da íris. Fixe o olhar num ponto e permaneça nesta posição, sem piscar, até olhos arderem. Gire devagar o globo para a direita, depois para a esquerda. Feche os olhos, apertando-os bem. Erga as sobrancelhas, esticando as pálpebras o máximo que conseguir”.
Até que não era difícil. Se surtisse efeito, em pouco tempo acabaria com aquele ar de quem passou a noite na farra, mesmo depois de dormir 8 horas. Fui para o segundo exercício: “Para evitar flacidez das maçãs do rosto, cantos da boca caídos e suavizar as rugas que vão do nariz até a boca, abra-a o máximo que puder, como se estivesse dando uma gargalhada. Force os cantos da boca para cima. Tente fazer um sorriso ainda maior enquanto diz cinco vezes: ‘rá rá rá’”. Fiquei parecida com o Curinga do filme Batman. Soltei a voz numa gargalhada, me sentindo um pouco ridícula. Desfiz rapidamente a máscara do riso e parti para o passo seguinte:
“Para suavizar as rugas verticais em torno da boca e tonificar a musculatura dos lábios, coloque uma rolha entre os dentes na posição vertical e force o lábio superior em direção ao inferior, tentando juntá-los. Tome cuidado para não formar rugas verticais em torno da boca durante o exercício. Deixe que os lábios voltem à posição normal, escorregando através da rolha.”
Tentando desengasgar, pensei em escrever uma carta à redação, alertando que seria melhor avisar as leitoras de que a rolha pode escorregar na direção contrária, o que não surte o menor efeito em favor das rugas. Expressões de dor e desespero são inúmeras vezes mais perniciosas que as de alegria, coisa que ninguém, em sã consciência, sentirá ao tentar remover a rolha entalada na garganta.
Refeita, segui adiante: “Para prevenir e evitar queixo duplo e flacidez na mandíbula, coloque a língua esticada no céu da boca, abra e feche a boca devagar, com a língua na mesma posição”. Essa era fácil. Finalmente, “para prevenir e suavizar as rugas verticais e horizontais da testa e o caimento das sobrancelhas, testa e pálpebras, franza as sobrancelhas o máximo que puder (como se estivesse preocupada). Erga-as e abra os olhos até ver o branco da íris. Repita cada exercício cinco vezes”.
Eu estava tão entretida em seguir à risca cada movimento que nem percebi que era observada pela família, reunida na porta do quarto. Diante do ar estupefato dos homens da casa, tentei explicar que, de modo algum, a culpa era deles. Dizer que me deixavam louca com suas exigências era força de expressão. Eu estava fazendo apenas alguns exercícios para não ficar enrugada.
Decidida a não traumatizá-los, achei melhor não fazer os exercícios em casa. Mesmo vaidosa, uma mulher jamais deve pôr em risco a sanidade da família. No dia seguinte, encontrei a solução: gasto meia hora para ir e vir do trabalho. Por que não aproveitar melhor esse tempo desperdiçado nos semáforos e congestionamentos e fazer caretas diante do espelho retrovisor?
Como aluna aplicada, faz um mês que repito diariamente as sessões de ginástica facial através das ruas e avenidas da cidade. De vez em quando alguém me olha espantado. Principalmente quando chego naquela parte do “rá rá rá”. Mas descobri que, no meio do trânsito caótico, um maluco a mais não faz a menor diferença.
Crônica publicada na Coop Revista - Setembro / 2.008

05.09.08

Velhos caretas

Velhos caretas
Lucia Sauerbronn
Bebê dá muito trabalho. Troca o dia pela noite, tem dor de barriga, de dente, de ouvido. Faz cocô nos colos mais impróprios. Ninguém se importa. Pelo contrário, não cansam de elogiar aquela gracinha que tem os olhos da vovó, o furinho no queixo do vovô, a bochecha do papai, a boca da mamãe e que, por tudo isso – ou mesmo que não seja nada disso –, é o bebê mais lindo do mundo.
Todo dia ele aparece com uma novidade. A família comemora o primeiro de tudo: sorriso, dente, abraço, passo, palavra... Mas o bebê logo se torna independente e começa a fazer arte pela casa. Quebra vaso, mastiga remédio, engole moeda, derruba detergente no olho. A família inteira corre pro pronto-socorro. Quase sempre é só susto. São e salvo, o pimpolho ganha milhões de abraços e beijinhos. Mas ninguém lembra de agradecer ao anjo da guarda esforçado.
Encantados com o milagre de gerar a vida, os pais prometem ser compreensivos e cuidadosos. Mesmo esgotados com a energia de pilha duracell dos baixinhos, jamais perderão a paciência. Serão os melhores pais do mundo. Não vão repetir erros dos próprios pais.
Mas criar filho direito dá um canseira danada. Tem que acompanhar a lição, comparecer às reuniões da escola, ao jogo de futebol, à apresentação de balé, ensinar as diferenças entre certo e errado, ser carinhoso na medida certa e duro na hora que importa. Abraçar, beijar e fazer as vontades, mas também dar bronca e pôr de castigo. Mesmo que seja para depois morrer de culpa com medo de ter exagerado.
Até completar uns dez anos, crianças são sempre maravilhosas. Enquanto descobrem o mundo, fazem as perguntas mais desconcertantes. Aos 13, são perfeitos pestinhas. Mas como somos seus heróis, perdoamos todas as travessuras e malcriações.
Porque o pior está por vir. E o pior – argh! – atende pelo nome de adolescência. Aquele que, até outro dia, era nosso doce bebê se recusa a tomar banho. Se for menina, ao contrário, não sai da frente do espelho. Passa o dia trancado no quarto, com o som tão alto que é capaz de o vizinho chamar a polícia. Não desgruda da turma, que a qualquer momento pode invadir a casa e esvaziar a geladeira.
Nosso ex-doce bebê fica horas na internet. A conta do celular pode sustentar uma família inteira. Só veste o que quer. E o que quer nos causa arrepios. Acha que é dono do próprio nariz. E – por que não? – do mundo. Aquela criança esperta, que aprendia depressa, agora passa de ano aos trancos e barrancos. Há sempre alguma coisa mais interessante para fazer do que estudar. Não nos convencem. Batemos pé firme: a escola é que vai garantir o seu futuro.
Os perigos estão sempre rondando e tiram o sono de qualquer pai: drogas, bebida, violência, internet, sexo precoce, gravidez fora de hora. O adolescente, ao contrário, não tem medo de nada. Acha que é imortal como um super-herói. E que problemas só acontecem com os outros. Tenta agir como adulto e adora conversar, desde que não seja com um adulto de verdade. O que nos exclui de qualquer espécie de diálogo.
Ricos ou pobres, trabalhamos feito loucos para pagar suas contas. Seja para alimentar aquela fome insaciável ou comprar material escolar, o tênis que ficou pequeno, a calça da moda, o videogame, o cinema, a balada e até o presente do ficante (porque hoje eles não namoram: ficam).
Ultrapassados como um carro fabricado nos anos 60, passamos a ser os piores pais do mundo. Somos criticados pelo modo de falar e vestir. Nossas opiniões já não têm valor. Conselhos, então... Humilhados, ainda temos de pedir ajuda aos espertinhos para ligar o DVD, gravar a agenda no celular e acessar a internet emperrada.
Até que encontram trabalho ou vão para a faculdade. Se tivermos sorte, as duas coisas juntas. E assumem novos ares. Conquistam vitórias no emprego. Mudam de cidade ou só aparecem para dormir. A casa fica vazia. Silenciosa.
Um dia aparecem com alguém que fazem questão de apresentar. Os pais se entreolham como se, naquele momento, percebessem que seu bebê virou adulto de verdade. Se tudo correr bem, mais dia, menos dia, ele vai casar ou morar junto, não importa. O que importa mesmo é quando ele anuncia que vai ser pai. O que nos transforma imediatamente em avós.
E, como todos sabem, avós são infinitamente melhores que pais.
De uma hora para outra, meninos e meninas danados assumem o ar severo de quem se ocupa em criar a próxima geração. E próxima geração quer dizer bebês que trocam o dia pela noite, têm dor de barriga, de dente, de ouvido, fazem cocô nos colos mais impróprios. Encantados com o milagre de gerar a vida, nossos filhos prometem ser os melhores pais do mundo. E de fato são. Iguaizinhos a nós, que fomos iguaizinhos aos nossos pais, que foram iguaizinhos aos nossos avós, que foram iguaizinhos...
E nós, velhos caretas? O que podemos fazer, se o mundo muda o tempo todo, mas continua sempre igual?
Bem, disfarçando um sorrisinho irônico, abrimos a porta de casa e deixamos aqueles deliciosos pestinhas fazer todas as diabruras e travessuras que desejarem.

Crônica publicada na Coop Revista - Maio / 2.007

22.08.08

PARE O MUNDO QUE EU QUERO DESCER

PARE O MUNDO QUE EU QUERO DESCER
Lucia Sauerbronn


Troco de roupa falando ao telefone, escovo os dentes calçando os sapatos, tomo café lendo o jornal e termino a maquilagem enquanto espero o semáforo abrir. Fujo do trânsito por ruas alternativas escolhendo caminhos entre os buracos. De longe, distingo uma vaga. Suspiro. O carro da frente chega antes. Para conseguir estacionar, preciso dar três voltas no quarteirão.
No trabalho, falo ao telefone lendo e-mails, atendo pessoas guardando pastas, rabisco anotações para não esquecer de fazer o que deveria ter feito ontem. Penso em meia dúzia de coisas ao mesmo tempo, falo três de uma vez só, atropelo os passos, esbarro nas cadeiras e derrubo café nos documentos que deveria assinar.
Termino o relatório que levei horas para fazer. Fecho a tela sem salvar o trabalho. Escarafuncho, desesperada, o computador, tentando restaurar o texto perdido. Inútil. Recomeço do zero.
Saio voando para casa. Estou atrasada, é claro. Por isso, o almoço vai sair mais tarde. A empregada está com problemas pessoais e pede ajuda. Fico pouco em casa, é ela quem resolve tudo, me sinto em dívida. Dou atenção, procuro ajudar. Depois do papo, mais aliviada, ela emenda: a despensa está vazia, é hora de fazer as compras. E me estende a lista.
Nem bem sento à mesa, o telefone toca. Meu marido reclama: os amigos sabem que só me encontram em casa nesses poucos minutos em que deveria estar com ele. Engulo o almoço frio e a cara feia da família, que já está na sobremesa.
Meu pai protesta: há uma semana não apareço. Telefono todos os dias, culpa de filha é de doer o coração e tirar o sono. Quem sabe, amanhã, depois do trabalho...
Ainda bem que tenho a tarde pela frente. Ah, as belas tardes de outono, com sol e brisa gostosa, tardes tão boas para andar a pé, olhar as pessoas, chutar pedras no caminho. Mas à tarde tem reunião no escritório, o projeto que precisa ser entregue hoje, o texto que ainda não concluí, as contas para pagar.
Ah!, e o pintor que vai fazer o orçamento do serviço lá de casa, não posso esquecer. Falando em esquecer, não é hoje o aniversário da Sueli? Preciso mandar flores. Não, melhor comprar um presente, dar um pulo até lá, levar um abraço. Mas hoje à noite tem reunião de condomínio, como é que fui aceitar essa incumbência? No mesmo horário da aula de francês, mon Dieu, c'est terrible!, a terceira falta deste mês. E eu que pensava chegar em casa cedo e terminar de ler aquele livro.
Não sei o que deu nas cabeças da mulheres, trocar a doce vidinha doméstica por essa alucinação toda. Às vezes, sinto vontade de jogar tudo para o alto e curtir o lar, doce lar. Ter tempo de olhar vitrines, ir ao cabeleireiro. Mandar tudo às favas e pegar um cineminha no meio da semana.
Mas agora é tarde. A gente assume compromissos... Falando nisso, não sei por que estou aqui divagando, essa crônica deveria ter sido entregue ontem.
À beira de enlouquecer, acho que seria mais fácil se o dia tivesse 36 horas. Mas não acredito que fosse adiantar. Tenho mania de querer abraçar o mundo. Iria pedir meia hora a mais.
Nessa neurose de querer me superar, não perdôo, busco a perfeição: um dia ainda chego antes de mim.

Crônica publicada na Coop Revista - Junho / 2.007