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cronicas da jornalista Lucia Sauerbronnn. Relatos divertidos do quotidiano.

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18.11.08

Novos problemas, velhos remédios

Novos problemas, velhos remédios

Lucia Sauerbronn

Não anda nada fácil manter o bom humor. Mas a vida continua e a gente não deve se deixar abater, apenas aguardar os acontecimentos. Todo mundo sabe que o melhor forma de combater energia negativa é ter atitudes positivas, que contagiam o ambiente e melhoram o astral. Até porque bom humor faz bem para a saúde. Do corpo, do coração e da alma.
A medicina, que se desenvolveu muito nas últimas décadas, descobriu a cura para quase todos os males. Mas ainda não inventou uma pílula do bom humor. Já pensou? No dia em que a gente acordasse com cara de poucos amigos, bastaria tomar uma dose para sair dando pulinhos de alegria.
Antigamente, quando havia remédio para pouca coisa e ir ao médico era um luxo, o jeito era apelar para a sabedoria popular. Toda avó sabia uma receita infalível para resolver qualquer problema. Lumbago, espinhela caída, sapinho, bicho do pé, falta de dinheiro e até dor de cotovelo se curava com simpatia.
Ninguém nunca compreendeu como as simpatias funcionam, mas que dão certo, ah!, isso dão. Por isso, enquanto a ciência não inventa a fórmula da pílula da felicidade, resolvi fazer uma pesquisa sobre o assunto. Descobri que não existe simpatia que devolva o bom humor. Mas achei algumas que servem perfeitamente para dar fim àqueles pequenos inconvenientes que acabam com a paciência de qualquer cristão. Ou muçulmano.
Se, por exemplo, o noticiário da TV fez você perder a fome, mastigue umas folhas de salsa. Ou, ao contrário, o assunto lhe deu azia e má digestão, cheire um pouco de vinagre e tome chá de losna. Perdeu a voz de tanto de torcer pelo gol – que não saiu – nas eliminatórias da Copa? Coma cenouras cozidas no mel. Anda com medo de afundar no mar de lama? Pois saiba que esfregar cinza quente nas costas protege contra afogamentos. Caso tenha resolvido afogar as mágoas num copo de bebida, a solução é outra: ressaca se cura pingando no ouvido gotinhas de limão.
Não há nada que estrague tanto o humor quanto passar a noite em claro. Se você não conseguir dormir de preocupação, nada de ficar rolando na cama. Ponha um saquinho com farinha de trigo dentro do travesseiro e, para garantir um sono de bebê, bata antes meio chuchu cru com água e açúcar e tome tudo de uma vez. Conseguiu dormir, mas teve pesadelos? Mantenha uma tesoura aberta debaixo do colchão. Em tempo: se o que está atrapalhando seu sono é o ronco do parceiro, não precisa se irritar com o coitado. Chame São Roque que o barulho pára na hora.
Agora, se a insônia é causada por problemas financeiros, dinheiro não vai faltar se você colocar moedas debaixo de uma estatueta de Buda, ou guardá-las dentro da caixa de alfinetes. Arrume também um vaso de uma planta chamada dinheiro-em-penca e cuide dele com muito carinho.
Depois não diga que não avisei. Quando o dinheiro começar a entrar, pode atrair mau-olhado. Nesse caso, apele de novo para o poder das plantas: tenha em casa trevo de quatro folhas, arruda e comigo-ninguém-pode, que dão sorte e cortam quebranto. Se um deles minguar, atenção: é caso de olho gordo. Passe a andar com três dentes de alho no bolso. Aí o benefício é duplo, todo mundo sabe que alho espanta vampiro.
Medo de ser assaltado? Ofereça três moedas aos gnomos e esconda debaixo de um móvel na entrada da casa ou sob o tapete do carro. Aproveite para fortalecer seu anjo da guarda, acendendo uma velinha para ele sempre que puder.
Até os males do coração têm remédio com simpatia. Quem acredita em Santo Antonio que o diga. Para arrumar namorado, escreva numa fita azul o nome da pessoa e conte sete estrelas no céu – sem apontar, senão dá verruga. Depois coloque a fita nos pés da imagem do santo e faça seu pedido. Santo Antonio sofre, mas também adora dar uma mãozinha em reconciliações: amarre sete fitas coloridas na sua estátua e vire-a de cabeça para baixo. E não desvire antes que vocês dois sejam confundidos com um casal de pombinhos.
Você pode achar que tudo isso é uma montanha de asneiras. Mas não custa nada tentar. Se não fizer bem, mal não faz. Como diria minha avó espanhola, “yo no creo en brujas pero que las hay las hay”.
Por outro lado, é bom lembrar que as simpatias são uma tradição brasileira, fazem parte do folclore de um País que respeita todas as religiões e credos. Exatamente a tolerância que falta para que povos tão diferentes como afegãos ou irlandeses conquistem a paz. O que me faz pensar que talvez não haja mesmo remédio nem simpatia que cure mau humor. Basta ser simpático.

Crônica publicada na Coop Revista - Novembro / 2.008

27.10.08

Dieta radical

Dieta radical
Lucia Sauerbronn
Alerta vermelho! O ponteiro da minha balança subiu quatro pontos! As roupas não fecham! E em pleno verão! Dieta já!
Para perder quilinhos extras, o dr. Atkins recomenda tirar pães, arroz, massas e até frutas. Devo comer só proteínas: carne vermelha, ovos e queijos à vontade. Ôba! Já na segunda, troco o café manhã por lingüiça frita. No almoço, caio de boca numa picanha. À noite, engulo cheeseburguer com maionese. Terça, espanto o sono com ovos e bacon. Quarta, feijoada. Quinta, rabada. Na sexta, pernil. Confiro a balança: perdi dois quilos. E também o sono. O estômago pesa, a noite não passa. Pesadelos me assaltam. Estou deitada numa poça de sangue de vacas e porcos retalhados. Passo a semana seguinte à base de alface e abobrinha. Engordo três quilos.
Experimento a dieta de Beverly Hills. Que mal há em comer um só tipo de fruta por dia? Frutas fazem bem, têm vitaminas, sais minerais. Segunda, abacaxi; terça, melão; quarta, papaya; quinta, melancia. Na sexta, passo direto pela quitanda e entro na pizzaria.
Compro um kit de emagrecimento. Devo trocar as refeições por shakes. Pareço criança em sorveteria. Experimento chocolate, baunilha, morango. Cinco dias depois, jogo o kit pela janela. Com liqüidificador e tudo.
Pela dieta dos pontos, posso comer qualquer coisa. Desde que em parcas porções. Preciso anotar o que ponho na boca e conferir numa tabela o número de pontos de cada alimento. São 300 pontos diários, ou 1.080 calorias. Dá um trabalho danado. Para simplificar, escolho os mais calóricos: big mac e um prato de brigadeiro. Às cinco da tarde, morro de fome, mas resisto. Acordo de madrugada e assalto a geladeira.
Todo verão surge uma dieta nova. O autor vira celebridade. Dá entrevistas na TV. O livro vira best-selles, sai em DVD. Todos querem aprender como perder peso sem fazer força. Meses depois, a dieta revolucionária cai em desgraça. Ninguém consegue se manter magro.
Resolvo fazer meu próprio regime. Margarina tem gordura trans, e engorda tanto quanto manteiga. Substituo açúcar por adoçante, que não tem calorias. Em compensação, contem sal que retém líquido, aumenta a pressão arterial e dá pedra nos rins.
Produtos diet são a delícia dos diabéticos. Mas para ter boa textura, tortas, cremes e chocolates recebem dose extra de gordura que, como a própria palavra sugere, engorda.
Adoto a culinária oriental. Fora lutador de sumô, nunca vi japonês obeso. Além do mais, sushi tem ômega 3. Faz bem ao coração. Não estou acostumada a engolir peixe cru. Para disfarçar o sabor, capricho no shoyo, salgado como água do mar. Os japoneses não sofrem de doenças cardíacas. Por outro lado, são campeões em derrame cerebral.
Opto por alimentos light. Pães, biscoitos, bolos e até pizzas com 0% de gordura. Só que tudo isso é carboidrato. Normal ou diet, têm o mesmo valor energético. Troco o queijo branco por ricota. A diferença quase não pesa na balança. Já o sabor, nem se compara.
Procuro me conformar. Com computador, controle remoto, celular e carro para ir até a padaria, cada dia me movimento menos. É natural que acumule mais calorias do que consigo gastar. Danem-se os regimes. Resolvo retomar velhos hábitos alimentares.
Tomo um bom desjejum: café com leite, pão, manteiga, queijo prato. Às 10hs, belisco castanhas. Almoço arroz, feijão, bife e salada de tomate com azeite. Sobremesa, banana com canela. Lancho uma barrinha de chocolate. Janto omelete, verduras e legumes. Arremato com uma taça de vinho tinto, que ninguém é de ferro. Antes de dormir, preparo um mingauzinho de aveia.
Faz três semanas que me livrei das dietas. Pareço outra, me sinto feliz. Durmo como um anjo. Minha pele melhorou. O colesterol e a pressão caíram. O ponteiro da balança também! Devo estar doente. Perdi peso comendo!
Consulto o médico amigo da família. Ele explica que comer de tudo um pouco é o caminho mais seguro para emagrecer e se manter saudável.
Café melhora o aprendizado, o reflexo, a concentração e a memória. Leite e derivados são saudáveis e previnem osteoporose. Feijão e arroz formam uma dobradinha perfeita. Seus aminoácidos se completam: o que falta num, tem no outro. Carne vermelha evita anemia. Azeite e tomate ajudam a desentupir as artérias. Frutas, legumes e verduras e frutas secas contêm vitaminas, sais minerais. Combatem os radicais livres. Chocolate estimula a serotonina, hormônio do bem estar. Aveia é rica em fibras, que ajudam o organismo a funcionar melhor. Já a lista de benefícios do vinho é enorme: aumenta a longevidade, é um antibiótico natural, anti-depressivo e rejuvenesce.
Voltei a ter prazer em comer e sinto menos fome. Durmo melhor (oito horas de sono por dia emagrecem) e acordo tão disposta que levo o cachorro para dar uma volta no quarteirão.
No próximo verão, preparem-se: vou lançar a dieta da mamãe.
Crônica publicada na Coop Revista - Janeiro / 2.007

16.10.08

Os meninos crescem*

Os meninos crescem*
Lucia Sauerbronn
Nem sei como tive coragem de levar para casa aquele embrulhinho de dois quilos, pele muito branca e a cabeça coberta por uma penugem ruiva. Na mesma noite, assustei com seu choro e tropecei no moisés que estava no chão, ao lado da cama. Ele rolou e ganhou uma marquinha roxa na bochecha. Ansiosa, não consegui amamentá-lo: na primeira semana, comprei uma mamadeira. Quando teve dor de ouvido, queimei sua orelha com óleo quente. Estabanada, deixei ele cair do carrinho algumas vezes. Como mãe, eu tinha tudo para dar errado. Apesar de mim, ele sobreviveu.
Foi um menino danado. Mas, fora o anjo da guarda, não deu trabalho para quase ninguém. Exceto os bombeiros, chamados às pressas quando ele e o irmão puseram fogo na casa.
Com o irmão, por sinal, fez uma parceria engraçada. Os dois, tão diferentes em personalidade e interesses, cresceram brigando, reclamando um do outro e se protegendo, como amigos de verdade. Moravam no sótão entre gibis, brinquedos e muita coisa espalhada pelo chão, território em que adulto só pisava como visita.
Determinado, quando entrava num jogo era para ganhar. O que nem sempre acontecia, como aquela vez em que apanhou no judô de uma menina maior do que ele. Aos oito anos resolveu ser independente. Fabricou bijuterias e armou uma barraquinha em frente de casa, no dia da feira. A avó acabou comprando tudo, e ele guardou o dinheiro no cofrinho. Montou uma bicicleta peça por peça. Fez seu próprio skate com a ajuda do avô. Sem pedir nada em troca, em dia de eleição escolhia um candidato e saía distribuindo santinho. Depois acompanhava a apuração, para conferir o resultado.
Tinha medo do escuro, e às vezes acordava de um pesadelo banhado de suor. Apesar disso, aos 17 anos enfrentou um ano inteiro de intercâmbio, morando com famílias desconhecidas fora do país. Mais tarde, foi estudar inglês por conta própria. Arrumou emprego de garçom num hotel em que a chefia americana não se dava com os funcionários mexicanos. Falando as duas línguas, construiu uma ponte entre eles. Ganhou prêmio como empregado do ano, mas chegou a morar no bairro barra pesada do Bronx, até que as torres gêmeas caíram. Tive de apelar à velha chantagem emocional de mãe para obrigá-lo a voltar para casa.
Chegou ao Brasil em meio à crise de 11 de setembro e não conseguia emprego. Publicitário, encontrou um jeito criativo de fazer propaganda de si mesmo: mandou imprimir um currículo do seu tamanho e, vestido de homem-currículo, circulou pela avenida Paulista. Veio até televisão.
Mas nem tudo foram flores. Não foi aluno dos mais brilhantes; acordava de mau humor para ir para a escola e passava de ano raspando. Nervosinho, um dia saiu de casa depois de brigarmos feio. Enquanto eu passava a noite falando com a polícia, ele dormia sossegado na casa da avó, proibida de me avisar... Com o pai também batia de frente, testando forças para se impor como adulto. Mas a cara feia durava pouco. Logo estavam torcendo juntos no futebol ou na fórmula 1.
O sem-vergonha aprontou das suas. Bateu carro, tomou porre, foi baladeiro, namorador. Até o dia em que reencontrou a velha paixão da escola e pediu a moça em casamento, com direito a igreja, padre, vestido de noiva.
Passei semanas escolhendo belas músicas clássicas para cada momento da cerimônia. Para minha surpresa, entrei na igreja de braço dado com meu filho ao som de Missão Impossível. Assim como os convidados, não pude segurar o riso. Apesar da pose e da seriedade do momento, aquele homem de terno escuro continuaria a ser eternamente meu menino arteiro e criativo. Recebeu a noiva no altar, trocaram alianças, juraram amor eterno, prometeram fidelidade. Estavam felizes.
Quando o vi deixar a igreja levando pela mão a mulher que escolheu para dividir o futuro, fiquei orgulhosa, mas preocupada: se fui uma mãe atrapalhada, como é que iria me comportar como sogra?
Minha nora é esquecida, agitada, avoada, desastrada e faz dez coisas ao mesmo tempo. Dizem que os homens procuram uma esposa parecida com a mãe. Sosseguei: acho que vamos nos dar bem.

* Os meninos crescem, título emprestado do livro do escritor Domingos Pellegrini.

Crônica publicada na Coop Revista - Outubro / 08

08.10.08

Memória virtual

Memória virtual

Lucia Sauerbronn

Reviro a bolsa procurando os óculos que estão pendurados no pescoço. Esqueço as chaves no escritório e não consigo entrar em casa. Guarda-chuva nem uso mais. Deixo recados para mim mesma e não lembro de ler.
Conversar virou pesadelo. Fico escaneando a memória atrás de uma palavra qualquer, mas ela se esconde na confusão dos meus neurônios. Embatuco no meio da frase e aí acontece o pior: não sei mais o que ia dizer. Gosto de comer gergelim. Para lembrar o nome do cereal, preciso cantar a música do biguimec até o fim.
A falta de memória me faz passar por situações delicadas. Cansei de ir em festa no dia errado, confundir filha com mãe, chamar a atual pelo nome da ex-mulher, perguntar pela saúde de quem acompanhei o enterro, dizer muito prazer a quem já fui apresentada.
Vivo no mundo da lua e cometo várias atrocidades. Umas difíceis de explicar, outras que dão vergonha confessar. Chego a trombar com um grande conhecido e não dizer nem olá. Pode ser que, em outra oportunidade, faça a maior festa quando encontrar.
Muita gente deve me achar esquisita. Vivo angustiada. Para não ser acusada de louca ou mal-educada, espalho por aí que sofro de miopia. Só não explico que é miopia mental. Minha cabeça nunca está no foco certo.
Aprendi a driblar situações saia-justa com frases genéricas. Chamo a pessoa de querida. Pergunto se está tudo em bem casa. Para estender a conversa ainda arrisco:
E lá (no trabalho? na escola?) alguma novidade?
Assim vou captando pistas para descobrir com quem estou falando. Nem sempre dá resultado.
Essa espécie de amnésia me perseguiu por toda a vida adulta. Em compensação, tenho memória de elefante para coisas sem a menor utilidade prática. Sei de cor as letras inteiras dos anúncios da Varig nos anos 60 e posso dizer de cabeça o número do telefone das minhas amigas de escola. Da época em que estava na escola. Basta ouvir uma melodia ou reconhecer a estampa de um vestido que cenas inteiras me voltam à memória como se estivessem acontecendo naquele instante.
Recito de cor poesias que aprendi na infância porque achei bonitas. Não é de se estranhar. A expressão saber de cor vem do latim cuore, que quer dizer coração. E o que passa pelo coração a gente nunca esquece. Como as músicas que a Elis cantava.
Antes que alguém insinue que estou ficando velha, acho bom deixar o preconceito de lado. A memória dos jovens não é melhor, apenas tem mais espaço livre. Eu, por exemplo, desperdicei a minha com bobagens que nunca mais vou usar. Para que é que vou morrer sabendo os afluentes do rio Amazonas?
Ando mais esperta. Recebo tanta informação, que procuro selecionar o que importa e deletar o que não interessa. Só que saber onde deixei as chaves de casa continua a ser de fundamental importância.
Para dizer a verdade, a situação está ficando difícil. O médico receitou umas pílulas para ativar a memória. Acho que fariam bem, se lembrasse de tomá-las. Recorri a alguns truques para treinar minha capacidade de reter fatos recentes. Comprei uns livretos de palavras cruzadas. Sei que 15 quilos correspondem a uma arroba. O primeiro nome de Einstein é Albert. Já a atriz do filme Proposta Indecente é aquela morena bonita, que foi casada com o ator que tem um sorrisinho maroto... Ela fez outro filme legal: o marido morre assassinado e volta do além para salvá-la, tinha uma música bacana... O sobrenome dela é o mesmo do cigarro que aquele careca, que fazia um seriado policial nos anos 70, fumava... Desisto.
Depois de anos de uso, meu fiel computador andava meio lerdo. Chamei o técnico. Ele fez uma faxina no hard disk e eliminou os arquivos inúteis. Deu um up grade na memória e instalou um sistema de busca. Está funcionando que é uma beleza. Para testar, abro o site e escrevo “nome da atriz do filme Proposta Indecente”. O resultado aparece em menos de um segundo: Demi Moore. É claro que eu sabia! A informação só estava perdida no buraco negro da minha mente.
Fiquei animada. Do jeito que a medicina anda avançando, quem sabe os médicos consigam fazer o mesmo com o meu cérebro...
Crônica publicada na Coop Revista - Fevereiro / 2.007

30.09.08

Mulheres adulteradas

Mulheres adulteradas
Lucia Sauerbronn
Perdi um tempão limpando a caixa de e-mails. Tá certo. Tem coisa legal. Mais ou menos uns três por cento. O resto é lixo eletrônico. Odeio aqueles com letrinhas que caem em conta-gotas. Fico socando a tecla enter para ver se a frase aparece de uma vez. Não resolve nada. Sou obrigada a ler no ritmo que o outro quer. É a ditadura do e-mail!!! Já pensei em entupir a caixa de mensagens desses chatos de plantão com mensagens mais chatas ainda. Mas vai que eles gostem...
Outra coisa que me deixa possessa são aquelas ligações nos momentos mais impróprios para oferecer serviços e produtos que não, eu não desejo, não preciso e tenho raiva de quem... Enfim. Para evitar um ataque de nervos, passei a pedir o telefone do inconveniente e aviso que ligo mais tarde. Sabe o que eles respondem? Que não estão autorizados a receber ligações. E quem foi que deu autorização de ligar para mim?
Pior é tentar falar com uma dessas centrais de atendimento eletrônico. Depois de digitar até o número da carteira de identidade da minha mãe, eles atendem e perguntam tudo de novo. Cáspite! Eu não acabei de fornecer até a data de nascimento do papagaio?
E o trânsito? E o trânsito? Você lá, andando sossegada e tem sempre um perturbado na sua frente. Estaciona em lugar proibido, anda a 20 por hora, bate papo no celular. Isso quando não aparece um maluco de motocicleta achando que tem prioridade de ambulância.
O elevador é outra praga. Nunca está lá quando eu chego. Se estou em cima, ele está embaixo. Se estou embaixo, ele está em cima. Parece que adivinha que sou eu.
Agora, o que me tira mesmo do sério é aquela maldita torneira pingando. Noite e dia, dia e noite. Cansei de pedir para o meu marido chamar o encanador. Mas ele não está nem aí se seu não consigo conviver com aquele barulhinho irritante. Se eu fosse namorada, não mulher, a porcaria da torneira já estaria consertada faz tempo. Ainda se ele soubesse trocar o diabo do courinho, mas quê!, ele não troca uma lâmpada em casa! Tenho eu que subir na escada, com risco de cair e me machucar toda. Quem sabe, sofrer traumatismo craniano e passar a vida entrevada numa cama de hospital. Ou até morrer! Ah, mas vai ver que é isso o que ele quer, seria um jeito bem fácil de se livrar de mim. Deve estar cansado da minha cara.
No mínimo, o mal-agradecido tem outra. Bem mais nova. Ele pensa que só eu envelheço? Será que não usa espelho? No começo de casados, era uma maravilha. Benzinho para cá, presentinho para lá. Um tal de telefonar o dia inteiro só para ouvir a minha voz e dizer que não via a hora de me encontrar. Agora? Chega em casa, dá um beijinho mixuruca e corre amassar o traseiro naquele maldito computador. Diz que quer ler as últimas notícias e ver o resultado do futebol.
Sei. Vai ver tem uma namorada virtual. Já tentei pegar em flagra um milhão de vezes, mas o sem-vergonha deve ter um jeito de fazer a tela mudar para a tabela do campeonato brasileiro quando me aproximo. Como é que ele faz uma coisa dessas comigo? Justo eu, que viro gato e sapato para agradar? Ele não tem uma camisa sem botão, nunca deixo faltar o suco que ele gosta, sempre que posso vou para a cozinha preparar bolo de chocolate, uma de suas paixões. Além da daquela vagabunda virtual, é claro, eu sou mesmo uma idiota.
Mas de hoje não passa. Ele tem que me contar tudo. Tudinho. Tim-tim por tim-tim. Porque ai, se eu descubro sozinha! Aí é que ele vai saber aonde a porca torce o rabo. A porca é ela, claro. Quebro a casa inteira, era só o que faltava, aquelazinha morando aqui dentro, aproveitando no bem-bom todas as coisas que levamos anos para construir. Veja do que uma mulher é capaz, destruir uma família. Porque vou pedir o divórcio.
Se ele não quer ficar comigo, que não fique. Nós não nascemos grudados! Já disse um milhão de vezes. Pego minhas coisas e sumo da poeira, ele vai ver só. Usou e abusou dos melhores anos da minha vida. Mas ainda não sou de jogar fora. Deve ter alguém por aí disposto a me amar. Tem sim. Alguém romântico, que mande flores, dê presentinhos. E um pouco de colo quando eu precisar. Porque ele nunca mais falou que me ama. Se não fala é porque não ama mesmo. Acho que nunca amou. É que é uma moleza, ter a mulherzinha em casa e sair por aí tendo casos virtuais, se é que são virtuais, o que duvido. Aliás, nem duvido mais.

Já disse tudo isso para ele no mês passado. E em todos os meses anteriores. Mas eu sou boba. Falo, falo e depois deixo para lá. Mas não dessa vez. Ah, não. Sou até capaz de me matar. Mas imagine se vai sair barato: vou escrever uma carta bem comprida, dizendo tudo o que sei e ele pensa que não sei, que é para ele ter que carregar o remorso para o resto da vida. Digo isso para ele. Já disse mil vezes.
Sabe o que ele responde? Nada. Não responde. Fica só ouvindo, ou finjindo que ouve, enquanto assiste ao telejornal.
E basta a moça encerrar o telejornal com um boa noite que ele repete sempre a mesma frase:
Então, meu bem, vamos dormir, que amanhã a TPM passa.
Crônica publicada na Coop Revista - Março / 2.007