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cronicas da jornalista Lucia Sauerbronnn. Relatos divertidos do quotidiano.

22/6/09

OBA!

Oba!

Lucia Sauerbronn

Com a crise rondando o travesseiro, minhas noites têm sido tumultuadas. Tento dormir, mas as notícias do jornal da noite continuam ribombando na minha cabeça. Essa história de colapso financeiro mundial ainda vai acabar comigo. Levanto feito zumbi e vou conferir os jornais à procura de boas novas.
Fico gelada ao ler as manchetes. Depois que os Estados Unidos dormiram bilionários e acordaram miseráveis, tudo pode acontecer. Profetas do fim do mundo, os economistas fazem previsões sinistras: em 2009, a China vai crescer só 9% e a Índia apenas 7%! A venda de bolsas Chanel pode cair pela metade. Prevendo queda na produção, a Ferrari deve demitir funcionários.
Mas não são só os franceses e italianos que estão desesperados. Os ingleses compraram ações dos bancos americanos e faliram junto com eles. A crise está tão brava que dizem que a rainha anda pensando em penhorar a coroa de diamantes. E os Estados Unidos, então, coitados! O corte de despesas será tão drástico que eles vão ser obrigados a acabar com a guerra do Iraque. Além de sofrer com a queda dos impostos da indústria de armamentos, milhares de jovens soldados vão perder o emprego.
O pior é nós, que não temos nada a ver com o mercado imobiliário americano, já sentimos a crise respingar na nossa cabeça. Se tem tempestade no Primeiro Mundo, o Terceiro afunda na lama. Nem bem o Brasil descobriu o pré-sal, o preço do petróleo foi para as cucuias, junto com nosso sonho de virar magnatas.
Pobres americanos! Desde a queda da bolsa de 1929 eles não sabem o que é crise financeira. Nós, não. Tivemos que aprender a sambar miudinho para acompanhar o ritmo da inflação brasileira. A coisa começou a ficar feia com a construção de Brasília, na década de 50. Depois, vieram obras faraônicas, como a Transamazônica, pontes, escolas, hospitais, tudo feito com empréstimo estrangeiro. Quando apresentaram a conta, a dívida externa era coisa de doido e, por causa dela, teve ano em que a inflação bateu os 1.000%.
Para brecar a inflação, de 1986 a 1995 o Brasil amargou sete planos econômicos: cruzado, cruzado II, Bresser, plano verão, plano Collor, Collor II… Era tanto plano que faltava até criatividade para dar nome às moedas, que viviam perdendo três zeros: cruzeiro, cruzeiro novo, cruzeiro (de novo), cruzado, cruzado novo, cruzeiro (parecia nome de filme: cruzeiro, o retorno), cruzeiro real, até chegarmos de volta ao começo: nossa primeira moeda, na época do Brasil colônia, se chamava real.
Era um tal de congela/descongela preços e salários: uma hora sobrava dinheiro e faltava o que comprar, noutra, sobrava produto e faltava dinheiro. O Plano Collor confiscou nossa poupança e todo brasileiro passou o mês com 50 cruzeiros. Nosso vocabulário era feito de palavras como superávit primário, indexação, ajuste fiscal, flutuação do dólar, âncora cambial. Aprendemos a fazer de cabeça contas complicadas, quando 2.750 cruzeiros reais passaram a valer 1 real, que dava para comprar um dólar… E não é que dava certo?
Agora que nós, aqui do lado de baixo do Equador, começamos a aproveitar o bem-bom da estabilidade financeira, me aparecem esses gringos para acabar com nosso sossego. Chegam anunciando colapso da economia, derrocada financeira, anos negros, que o mundo faliu. Alguém se preocupou quando nós é que estávamos falidos? Eles que são ricos que se entendam.
Sabemos tudo sobre crise. Somos professores de crise. Podemos dar aulas aos economistas do apocalipse. Quer saber? Nada pode ser pior do que tudo o brasileiro já passou. E tem mais: essas notícias estão me dando um stress danado.
Ligo a TV num programa rural. Fico sabendo que o café valorizou 8,25%, o Brasil vai produzir 200 mil sacas de soja resistente à ferrugem, a agricultura aposta em produtos orgânicos, os peixes criados em cativeiro vão se alimentar de microalgas naturais ricas em ômegas 3 e 6, que animais silvestres em extinção já convivem com a lavoura e voltam a reproduzir normalmente.
Vendemos soja, café, gado. Com a crise lá de fora, os países ricos talvez deixem de comprar nossos produtos. Mas temos muitos brasileiros a alimentar. Com maior oferta de alimento, a comida vai ficar mais barata e vamos consumir mais. Com mais consumo, teremos mais trabalho e, com trabalho, mais dinheiro para comprar roupas, casas, móveis, automóveis que vão fazer crescer nossa indústria, que vai gerar novos empregos, que vão… Jogo o jornal no lixo. Agora só vou ler o suplemento agrícola, que tem notícia boa. Tchau, baixo astral!
Crônica publicada na Coop Revista - Fevereiro / 2009

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18/11/08

Novos problemas, velhos remédios

Novos problemas, velhos remédios

Lucia Sauerbronn

Não anda nada fácil manter o bom humor. Mas a vida continua e a gente não deve se deixar abater, apenas aguardar os acontecimentos. Todo mundo sabe que o melhor forma de combater energia negativa é ter atitudes positivas, que contagiam o ambiente e melhoram o astral. Até porque bom humor faz bem para a saúde. Do corpo, do coração e da alma.
A medicina, que se desenvolveu muito nas últimas décadas, descobriu a cura para quase todos os males. Mas ainda não inventou uma pílula do bom humor. Já pensou? No dia em que a gente acordasse com cara de poucos amigos, bastaria tomar uma dose para sair dando pulinhos de alegria.
Antigamente, quando havia remédio para pouca coisa e ir ao médico era um luxo, o jeito era apelar para a sabedoria popular. Toda avó sabia uma receita infalível para resolver qualquer problema. Lumbago, espinhela caída, sapinho, bicho do pé, falta de dinheiro e até dor de cotovelo se curava com simpatia.
Ninguém nunca compreendeu como as simpatias funcionam, mas que dão certo, ah!, isso dão. Por isso, enquanto a ciência não inventa a fórmula da pílula da felicidade, resolvi fazer uma pesquisa sobre o assunto. Descobri que não existe simpatia que devolva o bom humor. Mas achei algumas que servem perfeitamente para dar fim àqueles pequenos inconvenientes que acabam com a paciência de qualquer cristão. Ou muçulmano.
Se, por exemplo, o noticiário da TV fez você perder a fome, mastigue umas folhas de salsa. Ou, ao contrário, o assunto lhe deu azia e má digestão, cheire um pouco de vinagre e tome chá de losna. Perdeu a voz de tanto de torcer pelo gol – que não saiu – nas eliminatórias da Copa? Coma cenouras cozidas no mel. Anda com medo de afundar no mar de lama? Pois saiba que esfregar cinza quente nas costas protege contra afogamentos. Caso tenha resolvido afogar as mágoas num copo de bebida, a solução é outra: ressaca se cura pingando no ouvido gotinhas de limão.
Não há nada que estrague tanto o humor quanto passar a noite em claro. Se você não conseguir dormir de preocupação, nada de ficar rolando na cama. Ponha um saquinho com farinha de trigo dentro do travesseiro e, para garantir um sono de bebê, bata antes meio chuchu cru com água e açúcar e tome tudo de uma vez. Conseguiu dormir, mas teve pesadelos? Mantenha uma tesoura aberta debaixo do colchão. Em tempo: se o que está atrapalhando seu sono é o ronco do parceiro, não precisa se irritar com o coitado. Chame São Roque que o barulho pára na hora.
Agora, se a insônia é causada por problemas financeiros, dinheiro não vai faltar se você colocar moedas debaixo de uma estatueta de Buda, ou guardá-las dentro da caixa de alfinetes. Arrume também um vaso de uma planta chamada dinheiro-em-penca e cuide dele com muito carinho.
Depois não diga que não avisei. Quando o dinheiro começar a entrar, pode atrair mau-olhado. Nesse caso, apele de novo para o poder das plantas: tenha em casa trevo de quatro folhas, arruda e comigo-ninguém-pode, que dão sorte e cortam quebranto. Se um deles minguar, atenção: é caso de olho gordo. Passe a andar com três dentes de alho no bolso. Aí o benefício é duplo, todo mundo sabe que alho espanta vampiro.
Medo de ser assaltado? Ofereça três moedas aos gnomos e esconda debaixo de um móvel na entrada da casa ou sob o tapete do carro. Aproveite para fortalecer seu anjo da guarda, acendendo uma velinha para ele sempre que puder.
Até os males do coração têm remédio com simpatia. Quem acredita em Santo Antonio que o diga. Para arrumar namorado, escreva numa fita azul o nome da pessoa e conte sete estrelas no céu – sem apontar, senão dá verruga. Depois coloque a fita nos pés da imagem do santo e faça seu pedido. Santo Antonio sofre, mas também adora dar uma mãozinha em reconciliações: amarre sete fitas coloridas na sua estátua e vire-a de cabeça para baixo. E não desvire antes que vocês dois sejam confundidos com um casal de pombinhos.
Você pode achar que tudo isso é uma montanha de asneiras. Mas não custa nada tentar. Se não fizer bem, mal não faz. Como diria minha avó espanhola, “yo no creo en brujas pero que las hay las hay”.
Por outro lado, é bom lembrar que as simpatias são uma tradição brasileira, fazem parte do folclore de um País que respeita todas as religiões e credos. Exatamente a tolerância que falta para que povos tão diferentes como afegãos ou irlandeses conquistem a paz. O que me faz pensar que talvez não haja mesmo remédio nem simpatia que cure mau humor. Basta ser simpático.

Crônica publicada na Coop Revista - Novembro / 2.008

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27/10/08

Dieta radical

Dieta radical
Lucia Sauerbronn
Alerta vermelho! O ponteiro da minha balança subiu quatro pontos! As roupas não fecham! E em pleno verão! Dieta já!
Para perder quilinhos extras, o dr. Atkins recomenda tirar pães, arroz, massas e até frutas. Devo comer só proteínas: carne vermelha, ovos e queijos à vontade. Ôba! Já na segunda, troco o café manhã por lingüiça frita. No almoço, caio de boca numa picanha. À noite, engulo cheeseburguer com maionese. Terça, espanto o sono com ovos e bacon. Quarta, feijoada. Quinta, rabada. Na sexta, pernil. Confiro a balança: perdi dois quilos. E também o sono. O estômago pesa, a noite não passa. Pesadelos me assaltam. Estou deitada numa poça de sangue de vacas e porcos retalhados. Passo a semana seguinte à base de alface e abobrinha. Engordo três quilos.
Experimento a dieta de Beverly Hills. Que mal há em comer um só tipo de fruta por dia? Frutas fazem bem, têm vitaminas, sais minerais. Segunda, abacaxi; terça, melão; quarta, papaya; quinta, melancia. Na sexta, passo direto pela quitanda e entro na pizzaria.
Compro um kit de emagrecimento. Devo trocar as refeições por shakes. Pareço criança em sorveteria. Experimento chocolate, baunilha, morango. Cinco dias depois, jogo o kit pela janela. Com liqüidificador e tudo.
Pela dieta dos pontos, posso comer qualquer coisa. Desde que em parcas porções. Preciso anotar o que ponho na boca e conferir numa tabela o número de pontos de cada alimento. São 300 pontos diários, ou 1.080 calorias. Dá um trabalho danado. Para simplificar, escolho os mais calóricos: big mac e um prato de brigadeiro. Às cinco da tarde, morro de fome, mas resisto. Acordo de madrugada e assalto a geladeira.
Todo verão surge uma dieta nova. O autor vira celebridade. Dá entrevistas na TV. O livro vira best-selles, sai em DVD. Todos querem aprender como perder peso sem fazer força. Meses depois, a dieta revolucionária cai em desgraça. Ninguém consegue se manter magro.
Resolvo fazer meu próprio regime. Margarina tem gordura trans, e engorda tanto quanto manteiga. Substituo açúcar por adoçante, que não tem calorias. Em compensação, contem sal que retém líquido, aumenta a pressão arterial e dá pedra nos rins.
Produtos diet são a delícia dos diabéticos. Mas para ter boa textura, tortas, cremes e chocolates recebem dose extra de gordura que, como a própria palavra sugere, engorda.
Adoto a culinária oriental. Fora lutador de sumô, nunca vi japonês obeso. Além do mais, sushi tem ômega 3. Faz bem ao coração. Não estou acostumada a engolir peixe cru. Para disfarçar o sabor, capricho no shoyo, salgado como água do mar. Os japoneses não sofrem de doenças cardíacas. Por outro lado, são campeões em derrame cerebral.
Opto por alimentos light. Pães, biscoitos, bolos e até pizzas com 0% de gordura. Só que tudo isso é carboidrato. Normal ou diet, têm o mesmo valor energético. Troco o queijo branco por ricota. A diferença quase não pesa na balança. Já o sabor, nem se compara.
Procuro me conformar. Com computador, controle remoto, celular e carro para ir até a padaria, cada dia me movimento menos. É natural que acumule mais calorias do que consigo gastar. Danem-se os regimes. Resolvo retomar velhos hábitos alimentares.
Tomo um bom desjejum: café com leite, pão, manteiga, queijo prato. Às 10hs, belisco castanhas. Almoço arroz, feijão, bife e salada de tomate com azeite. Sobremesa, banana com canela. Lancho uma barrinha de chocolate. Janto omelete, verduras e legumes. Arremato com uma taça de vinho tinto, que ninguém é de ferro. Antes de dormir, preparo um mingauzinho de aveia.
Faz três semanas que me livrei das dietas. Pareço outra, me sinto feliz. Durmo como um anjo. Minha pele melhorou. O colesterol e a pressão caíram. O ponteiro da balança também! Devo estar doente. Perdi peso comendo!
Consulto o médico amigo da família. Ele explica que comer de tudo um pouco é o caminho mais seguro para emagrecer e se manter saudável.
Café melhora o aprendizado, o reflexo, a concentração e a memória. Leite e derivados são saudáveis e previnem osteoporose. Feijão e arroz formam uma dobradinha perfeita. Seus aminoácidos se completam: o que falta num, tem no outro. Carne vermelha evita anemia. Azeite e tomate ajudam a desentupir as artérias. Frutas, legumes e verduras e frutas secas contêm vitaminas, sais minerais. Combatem os radicais livres. Chocolate estimula a serotonina, hormônio do bem estar. Aveia é rica em fibras, que ajudam o organismo a funcionar melhor. Já a lista de benefícios do vinho é enorme: aumenta a longevidade, é um antibiótico natural, anti-depressivo e rejuvenesce.
Voltei a ter prazer em comer e sinto menos fome. Durmo melhor (oito horas de sono por dia emagrecem) e acordo tão disposta que levo o cachorro para dar uma volta no quarteirão.
No próximo verão, preparem-se: vou lançar a dieta da mamãe.
Crônica publicada na Coop Revista - Janeiro / 2.007

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16/10/08

Os meninos crescem*

Os meninos crescem*
Lucia Sauerbronn
Nem sei como tive coragem de levar para casa aquele embrulhinho de dois quilos, pele muito branca e a cabeça coberta por uma penugem ruiva. Na mesma noite, assustei com seu choro e tropecei no moisés que estava no chão, ao lado da cama. Ele rolou e ganhou uma marquinha roxa na bochecha. Ansiosa, não consegui amamentá-lo: na primeira semana, comprei uma mamadeira. Quando teve dor de ouvido, queimei sua orelha com óleo quente. Estabanada, deixei ele cair do carrinho algumas vezes. Como mãe, eu tinha tudo para dar errado. Apesar de mim, ele sobreviveu.
Foi um menino danado. Mas, fora o anjo da guarda, não deu trabalho para quase ninguém. Exceto os bombeiros, chamados às pressas quando ele e o irmão puseram fogo na casa.
Com o irmão, por sinal, fez uma parceria engraçada. Os dois, tão diferentes em personalidade e interesses, cresceram brigando, reclamando um do outro e se protegendo, como amigos de verdade. Moravam no sótão entre gibis, brinquedos e muita coisa espalhada pelo chão, território em que adulto só pisava como visita.
Determinado, quando entrava num jogo era para ganhar. O que nem sempre acontecia, como aquela vez em que apanhou no judô de uma menina maior do que ele. Aos oito anos resolveu ser independente. Fabricou bijuterias e armou uma barraquinha em frente de casa, no dia da feira. A avó acabou comprando tudo, e ele guardou o dinheiro no cofrinho. Montou uma bicicleta peça por peça. Fez seu próprio skate com a ajuda do avô. Sem pedir nada em troca, em dia de eleição escolhia um candidato e saía distribuindo santinho. Depois acompanhava a apuração, para conferir o resultado.
Tinha medo do escuro, e às vezes acordava de um pesadelo banhado de suor. Apesar disso, aos 17 anos enfrentou um ano inteiro de intercâmbio, morando com famílias desconhecidas fora do país. Mais tarde, foi estudar inglês por conta própria. Arrumou emprego de garçom num hotel em que a chefia americana não se dava com os funcionários mexicanos. Falando as duas línguas, construiu uma ponte entre eles. Ganhou prêmio como empregado do ano, mas chegou a morar no bairro barra pesada do Bronx, até que as torres gêmeas caíram. Tive de apelar à velha chantagem emocional de mãe para obrigá-lo a voltar para casa.
Chegou ao Brasil em meio à crise de 11 de setembro e não conseguia emprego. Publicitário, encontrou um jeito criativo de fazer propaganda de si mesmo: mandou imprimir um currículo do seu tamanho e, vestido de homem-currículo, circulou pela avenida Paulista. Veio até televisão.
Mas nem tudo foram flores. Não foi aluno dos mais brilhantes; acordava de mau humor para ir para a escola e passava de ano raspando. Nervosinho, um dia saiu de casa depois de brigarmos feio. Enquanto eu passava a noite falando com a polícia, ele dormia sossegado na casa da avó, proibida de me avisar… Com o pai também batia de frente, testando forças para se impor como adulto. Mas a cara feia durava pouco. Logo estavam torcendo juntos no futebol ou na fórmula 1.
O sem-vergonha aprontou das suas. Bateu carro, tomou porre, foi baladeiro, namorador. Até o dia em que reencontrou a velha paixão da escola e pediu a moça em casamento, com direito a igreja, padre, vestido de noiva.
Passei semanas escolhendo belas músicas clássicas para cada momento da cerimônia. Para minha surpresa, entrei na igreja de braço dado com meu filho ao som de Missão Impossível. Assim como os convidados, não pude segurar o riso. Apesar da pose e da seriedade do momento, aquele homem de terno escuro continuaria a ser eternamente meu menino arteiro e criativo. Recebeu a noiva no altar, trocaram alianças, juraram amor eterno, prometeram fidelidade. Estavam felizes.
Quando o vi deixar a igreja levando pela mão a mulher que escolheu para dividir o futuro, fiquei orgulhosa, mas preocupada: se fui uma mãe atrapalhada, como é que iria me comportar como sogra?
Minha nora é esquecida, agitada, avoada, desastrada e faz dez coisas ao mesmo tempo. Dizem que os homens procuram uma esposa parecida com a mãe. Sosseguei: acho que vamos nos dar bem.

* Os meninos crescem, título emprestado do livro do escritor Domingos Pellegrini.

Crônica publicada na Coop Revista - Outubro / 08

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8/10/08

Memória virtual

Memória virtual

Lucia Sauerbronn

Reviro a bolsa procurando os óculos que estão pendurados no pescoço. Esqueço as chaves no escritório e não consigo entrar em casa. Guarda-chuva nem uso mais. Deixo recados para mim mesma e não lembro de ler.
Conversar virou pesadelo. Fico escaneando a memória atrás de uma palavra qualquer, mas ela se esconde na confusão dos meus neurônios. Embatuco no meio da frase e aí acontece o pior: não sei mais o que ia dizer. Gosto de comer gergelim. Para lembrar o nome do cereal, preciso cantar a música do biguimec até o fim.
A falta de memória me faz passar por situações delicadas. Cansei de ir em festa no dia errado, confundir filha com mãe, chamar a atual pelo nome da ex-mulher, perguntar pela saúde de quem acompanhei o enterro, dizer muito prazer a quem já fui apresentada.
Vivo no mundo da lua e cometo várias atrocidades. Umas difíceis de explicar, outras que dão vergonha confessar. Chego a trombar com um grande conhecido e não dizer nem olá. Pode ser que, em outra oportunidade, faça a maior festa quando encontrar.
Muita gente deve me achar esquisita. Vivo angustiada. Para não ser acusada de louca ou mal-educada, espalho por aí que sofro de miopia. Só não explico que é miopia mental. Minha cabeça nunca está no foco certo.
Aprendi a driblar situações saia-justa com frases genéricas. Chamo a pessoa de querida. Pergunto se está tudo em bem casa. Para estender a conversa ainda arrisco:
E lá (no trabalho? na escola?) alguma novidade?
Assim vou captando pistas para descobrir com quem estou falando. Nem sempre dá resultado.
Essa espécie de amnésia me perseguiu por toda a vida adulta. Em compensação, tenho memória de elefante para coisas sem a menor utilidade prática. Sei de cor as letras inteiras dos anúncios da Varig nos anos 60 e posso dizer de cabeça o número do telefone das minhas amigas de escola. Da época em que estava na escola. Basta ouvir uma melodia ou reconhecer a estampa de um vestido que cenas inteiras me voltam à memória como se estivessem acontecendo naquele instante.
Recito de cor poesias que aprendi na infância porque achei bonitas. Não é de se estranhar. A expressão saber de cor vem do latim cuore, que quer dizer coração. E o que passa pelo coração a gente nunca esquece. Como as músicas que a Elis cantava.
Antes que alguém insinue que estou ficando velha, acho bom deixar o preconceito de lado. A memória dos jovens não é melhor, apenas tem mais espaço livre. Eu, por exemplo, desperdicei a minha com bobagens que nunca mais vou usar. Para que é que vou morrer sabendo os afluentes do rio Amazonas?
Ando mais esperta. Recebo tanta informação, que procuro selecionar o que importa e deletar o que não interessa. Só que saber onde deixei as chaves de casa continua a ser de fundamental importância.
Para dizer a verdade, a situação está ficando difícil. O médico receitou umas pílulas para ativar a memória. Acho que fariam bem, se lembrasse de tomá-las. Recorri a alguns truques para treinar minha capacidade de reter fatos recentes. Comprei uns livretos de palavras cruzadas. Sei que 15 quilos correspondem a uma arroba. O primeiro nome de Einstein é Albert. Já a atriz do filme Proposta Indecente é aquela morena bonita, que foi casada com o ator que tem um sorrisinho maroto… Ela fez outro filme legal: o marido morre assassinado e volta do além para salvá-la, tinha uma música bacana… O sobrenome dela é o mesmo do cigarro que aquele careca, que fazia um seriado policial nos anos 70, fumava… Desisto.
Depois de anos de uso, meu fiel computador andava meio lerdo. Chamei o técnico. Ele fez uma faxina no hard disk e eliminou os arquivos inúteis. Deu um up grade na memória e instalou um sistema de busca. Está funcionando que é uma beleza. Para testar, abro o site e escrevo “nome da atriz do filme Proposta Indecente”. O resultado aparece em menos de um segundo: Demi Moore. É claro que eu sabia! A informação só estava perdida no buraco negro da minha mente.
Fiquei animada. Do jeito que a medicina anda avançando, quem sabe os médicos consigam fazer o mesmo com o meu cérebro…
Crônica publicada na Coop Revista - Fevereiro / 2.007

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30/9/08

Mulheres adulteradas

Mulheres adulteradas
Lucia Sauerbronn
Perdi um tempão limpando a caixa de e-mails. Tá certo. Tem coisa legal. Mais ou menos uns três por cento. O resto é lixo eletrônico. Odeio aqueles com letrinhas que caem em conta-gotas. Fico socando a tecla enter para ver se a frase aparece de uma vez. Não resolve nada. Sou obrigada a ler no ritmo que o outro quer. É a ditadura do e-mail!!! Já pensei em entupir a caixa de mensagens desses chatos de plantão com mensagens mais chatas ainda. Mas vai que eles gostem…
Outra coisa que me deixa possessa são aquelas ligações nos momentos mais impróprios para oferecer serviços e produtos que não, eu não desejo, não preciso e tenho raiva de quem… Enfim. Para evitar um ataque de nervos, passei a pedir o telefone do inconveniente e aviso que ligo mais tarde. Sabe o que eles respondem? Que não estão autorizados a receber ligações. E quem foi que deu autorização de ligar para mim?
Pior é tentar falar com uma dessas centrais de atendimento eletrônico. Depois de digitar até o número da carteira de identidade da minha mãe, eles atendem e perguntam tudo de novo. Cáspite! Eu não acabei de fornecer até a data de nascimento do papagaio?
E o trânsito? E o trânsito? Você lá, andando sossegada e tem sempre um perturbado na sua frente. Estaciona em lugar proibido, anda a 20 por hora, bate papo no celular. Isso quando não aparece um maluco de motocicleta achando que tem prioridade de ambulância.
O elevador é outra praga. Nunca está lá quando eu chego. Se estou em cima, ele está embaixo. Se estou embaixo, ele está em cima. Parece que adivinha que sou eu.
Agora, o que me tira mesmo do sério é aquela maldita torneira pingando. Noite e dia, dia e noite. Cansei de pedir para o meu marido chamar o encanador. Mas ele não está nem aí se seu não consigo conviver com aquele barulhinho irritante. Se eu fosse namorada, não mulher, a porcaria da torneira já estaria consertada faz tempo. Ainda se ele soubesse trocar o diabo do courinho, mas quê!, ele não troca uma lâmpada em casa! Tenho eu que subir na escada, com risco de cair e me machucar toda. Quem sabe, sofrer traumatismo craniano e passar a vida entrevada numa cama de hospital. Ou até morrer! Ah, mas vai ver que é isso o que ele quer, seria um jeito bem fácil de se livrar de mim. Deve estar cansado da minha cara.
No mínimo, o mal-agradecido tem outra. Bem mais nova. Ele pensa que só eu envelheço? Será que não usa espelho? No começo de casados, era uma maravilha. Benzinho para cá, presentinho para lá. Um tal de telefonar o dia inteiro só para ouvir a minha voz e dizer que não via a hora de me encontrar. Agora? Chega em casa, dá um beijinho mixuruca e corre amassar o traseiro naquele maldito computador. Diz que quer ler as últimas notícias e ver o resultado do futebol.
Sei. Vai ver tem uma namorada virtual. Já tentei pegar em flagra um milhão de vezes, mas o sem-vergonha deve ter um jeito de fazer a tela mudar para a tabela do campeonato brasileiro quando me aproximo. Como é que ele faz uma coisa dessas comigo? Justo eu, que viro gato e sapato para agradar? Ele não tem uma camisa sem botão, nunca deixo faltar o suco que ele gosta, sempre que posso vou para a cozinha preparar bolo de chocolate, uma de suas paixões. Além da daquela vagabunda virtual, é claro, eu sou mesmo uma idiota.
Mas de hoje não passa. Ele tem que me contar tudo. Tudinho. Tim-tim por tim-tim. Porque ai, se eu descubro sozinha! Aí é que ele vai saber aonde a porca torce o rabo. A porca é ela, claro. Quebro a casa inteira, era só o que faltava, aquelazinha morando aqui dentro, aproveitando no bem-bom todas as coisas que levamos anos para construir. Veja do que uma mulher é capaz, destruir uma família. Porque vou pedir o divórcio.
Se ele não quer ficar comigo, que não fique. Nós não nascemos grudados! Já disse um milhão de vezes. Pego minhas coisas e sumo da poeira, ele vai ver só. Usou e abusou dos melhores anos da minha vida. Mas ainda não sou de jogar fora. Deve ter alguém por aí disposto a me amar. Tem sim. Alguém romântico, que mande flores, dê presentinhos. E um pouco de colo quando eu precisar. Porque ele nunca mais falou que me ama. Se não fala é porque não ama mesmo. Acho que nunca amou. É que é uma moleza, ter a mulherzinha em casa e sair por aí tendo casos virtuais, se é que são virtuais, o que duvido. Aliás, nem duvido mais.

Já disse tudo isso para ele no mês passado. E em todos os meses anteriores. Mas eu sou boba. Falo, falo e depois deixo para lá. Mas não dessa vez. Ah, não. Sou até capaz de me matar. Mas imagine se vai sair barato: vou escrever uma carta bem comprida, dizendo tudo o que sei e ele pensa que não sei, que é para ele ter que carregar o remorso para o resto da vida. Digo isso para ele. Já disse mil vezes.
Sabe o que ele responde? Nada. Não responde. Fica só ouvindo, ou finjindo que ouve, enquanto assiste ao telejornal.
E basta a moça encerrar o telejornal com um boa noite que ele repete sempre a mesma frase:
Então, meu bem, vamos dormir, que amanhã a TPM passa.
Crônica publicada na Coop Revista - Março / 2.007

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23/9/08

Isso é Brasil

Isso é Brasil
Lucia Sauerbronn
O Japonês da tinturaria batia ponto toda terça-feira de manhã lá em casa. Tivesse ou não roupa para lavar. O Português da padaria era legal comigo. Gostava de conversar enquanto cuidava do caixa e sempre me dava umas balinhas de mel, que eu adorava.
Do outro lado da rua, tinha o Judeu da sapataria, que um dia me salvou das rodas de um carro. Ele teve câncer de garganta, por isso vendeu a sapataria para o Turco, que era chaveiro.
Quando faltava alguma coisa na cozinha, minha mãe mandava eu dar um pulo na mercearia do Italiano. Se sobrasse troco, às vezes me deixava comer o pastel do Chinês ou uma esfiha no Árabe. Se desse sorte, talvez ainda sobrasse um dinheirinho para me lambuzar com uma torta de creme na doceria do Alemão.
Eu costumava brincar na casa das Espanholinhas. Elas moravam em cima da loja de tecidos dos pais. Na mesma rua ficava a borracharia do Negão, cuja filha era imbatível nas partidas de vôlei. Eu não desgrudava da Japa, dona de uns lindos olhos puxados. A Índia, que nunca mais vi, também estudou comigo e deve ter se tornado uma morena de cair o queixo.
Mais tarde casei com o Ruivo. Quando meus filhos nasceram com a cara do pai, passei a ser apontada como a mãe dos Enferrujadinhos. Criança, eu era a Branca de Neve. Por sinal, o mesmo apelido do melhor jogador de pelada da rua. Por motivos opostos.
Todos tivemos amigos conhecidos por Baixinho, Boca, Bola 7, Girafa, Cabeção, Bolota, Dumbo, Tampa, Galocha, Pé Grande. As relações eram mais simples. Ninguém ficava chateado por ser identificado pela origem, cor, característica física, personalidade ou profissão. Apelidos eram comuns. Não causavam trauma nem mágoa. Não embutiam maldade nem preconceito.
Hoje tudo isso seria absurdo. Politicamente incorreto. É claro que acho justo tomar cuidado com as palavras para não ferir ninguém. Mas palavras são menos perigosas do que pensamentos e atitudes.
Preconceito é impedir as pessoas de viver onde elas desejam, circular por onde bem entenderem, ter a profissão que escolherem e os mesmos direitos de qualquer cidadão.
Nos anos 70, era moda ter o corpo bronzeado. As meninas passavam horas tostando no sol. Eu poderia considerar uma ofensa ser chamada de Branca de Neve. Mas eu era branca como a neve! Sobrevivi ao apelido, sem ter vergonha de mim mesma.
Eu me sentiria ofendida, sim, se, ao invés de um curto e auto-explicativo Branca de Neve, passasse a ser chamada de euro-descendente. Pura hipocrisia. A expressão embute a intenção de não ofender. E isso é que é prá lá de preconceituoso.
O Brasil foi formado por portugueses, índios e escravos. No século passado, recebeu, de braços abertos, imigrantes de muitas outras origens. Convivemos com as diferenças. Aprendemos com elas e fomos esquecendo equívocos de um passado do qual não podemos ser culpados e que cada vez fazem menos sentido.
Em muitos países, o preconceito de raça e credo gera ódio, humilhação, disputas e guerras que não têm mais fim. Aqui as raças se misturaram. Em breve seremos todos mulatos. Brasileiros, graças a Deus.

Crônica publicada na Coop Revista - Abril / 2.007

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15/9/08

TUDO PELO VISUAL

TUDO PELO VISUAL
Lucia Sauerbronn
Toda mulher sabe que, a partir de uma certa idade, o espelho é seu pior inimigo. O meu, que não é mágico como o da Rainha Má da Branca de Neve, anda mostrando que os potes de creme já não surtem o efeito desejado contra a lei da gravidade, que ensina que tudo cai.
Antes de recorrer a uma plástica radical, encontrei numa revista a solução menos drástica para atenuar minhas marquinhas impertinentes. A partir dos estudos de Leonardo Da Vinci sobre anatomia, uma americana desenvolveu uma série de exercícios para amenizar os traços do tempo, com o sugestivo nome de ginástica facial. Que maravilha! Nem precisaria ir à academia, dava para fazer os exercícios em casa mesmo.
Segundo o texto, o objetivo da ginástica facial é fortalecer e tonificar os 33 músculos do rosto, que, relaxados, tornam a expressão mais suave. Bastava completar o programa de rejuvenescimento com o cuidado de não enrugar a testa ao ficar preocupada, não franzir os olhos diante da luz e procurar sorrir apenas levemente, mesmo diante da piada mais engraçada. Eureka! Aquela matéria desvendava um enigma que há cinco séculos vinha intrigando estudiosos das Artes e Ciências: o sorriso da Mona Lisa. Ao ser imortalizada na tela pelo velho Leo, Gioconda apenas obedecia aos seus ensinamentos: para ser eternamente jovem é preciso manter a expressão calma e serena.
Entusiasmada com a descoberta, segui lendo a matéria, procurando diante do espelho memorizar cada exercício: “Para prevenir e corrigir pálpebras inchadas, suavizar pés-de-galinha e evitar a retração do globo ocular, erga as sobrancelhas, arregalando os olhos até ver o branco acima da íris. Fixe o olhar num ponto e permaneça nesta posição, sem piscar, até olhos arderem. Gire devagar o globo para a direita, depois para a esquerda. Feche os olhos, apertando-os bem. Erga as sobrancelhas, esticando as pálpebras o máximo que conseguir”.
Até que não era difícil. Se surtisse efeito, em pouco tempo acabaria com aquele ar de quem passou a noite na farra, mesmo depois de dormir 8 horas. Fui para o segundo exercício: “Para evitar flacidez das maçãs do rosto, cantos da boca caídos e suavizar as rugas que vão do nariz até a boca, abra-a o máximo que puder, como se estivesse dando uma gargalhada. Force os cantos da boca para cima. Tente fazer um sorriso ainda maior enquanto diz cinco vezes: ‘rá rá rá’”. Fiquei parecida com o Curinga do filme Batman. Soltei a voz numa gargalhada, me sentindo um pouco ridícula. Desfiz rapidamente a máscara do riso e parti para o passo seguinte:
“Para suavizar as rugas verticais em torno da boca e tonificar a musculatura dos lábios, coloque uma rolha entre os dentes na posição vertical e force o lábio superior em direção ao inferior, tentando juntá-los. Tome cuidado para não formar rugas verticais em torno da boca durante o exercício. Deixe que os lábios voltem à posição normal, escorregando através da rolha.”
Tentando desengasgar, pensei em escrever uma carta à redação, alertando que seria melhor avisar as leitoras de que a rolha pode escorregar na direção contrária, o que não surte o menor efeito em favor das rugas. Expressões de dor e desespero são inúmeras vezes mais perniciosas que as de alegria, coisa que ninguém, em sã consciência, sentirá ao tentar remover a rolha entalada na garganta.
Refeita, segui adiante: “Para prevenir e evitar queixo duplo e flacidez na mandíbula, coloque a língua esticada no céu da boca, abra e feche a boca devagar, com a língua na mesma posição”. Essa era fácil. Finalmente, “para prevenir e suavizar as rugas verticais e horizontais da testa e o caimento das sobrancelhas, testa e pálpebras, franza as sobrancelhas o máximo que puder (como se estivesse preocupada). Erga-as e abra os olhos até ver o branco da íris. Repita cada exercício cinco vezes”.
Eu estava tão entretida em seguir à risca cada movimento que nem percebi que era observada pela família, reunida na porta do quarto. Diante do ar estupefato dos homens da casa, tentei explicar que, de modo algum, a culpa era deles. Dizer que me deixavam louca com suas exigências era força de expressão. Eu estava fazendo apenas alguns exercícios para não ficar enrugada.
Decidida a não traumatizá-los, achei melhor não fazer os exercícios em casa. Mesmo vaidosa, uma mulher jamais deve pôr em risco a sanidade da família. No dia seguinte, encontrei a solução: gasto meia hora para ir e vir do trabalho. Por que não aproveitar melhor esse tempo desperdiçado nos semáforos e congestionamentos e fazer caretas diante do espelho retrovisor?
Como aluna aplicada, faz um mês que repito diariamente as sessões de ginástica facial através das ruas e avenidas da cidade. De vez em quando alguém me olha espantado. Principalmente quando chego naquela parte do “rá rá rá”. Mas descobri que, no meio do trânsito caótico, um maluco a mais não faz a menor diferença.
Crônica publicada na Coop Revista - Setembro / 2.008

criado por sauerb    10:31 — Arquivado em: Sem categoria

5/9/08

Velhos caretas

Velhos caretas
Lucia Sauerbronn
Bebê dá muito trabalho. Troca o dia pela noite, tem dor de barriga, de dente, de ouvido. Faz cocô nos colos mais impróprios. Ninguém se importa. Pelo contrário, não cansam de elogiar aquela gracinha que tem os olhos da vovó, o furinho no queixo do vovô, a bochecha do papai, a boca da mamãe e que, por tudo isso – ou mesmo que não seja nada disso –, é o bebê mais lindo do mundo.
Todo dia ele aparece com uma novidade. A família comemora o primeiro de tudo: sorriso, dente, abraço, passo, palavra… Mas o bebê logo se torna independente e começa a fazer arte pela casa. Quebra vaso, mastiga remédio, engole moeda, derruba detergente no olho. A família inteira corre pro pronto-socorro. Quase sempre é só susto. São e salvo, o pimpolho ganha milhões de abraços e beijinhos. Mas ninguém lembra de agradecer ao anjo da guarda esforçado.
Encantados com o milagre de gerar a vida, os pais prometem ser compreensivos e cuidadosos. Mesmo esgotados com a energia de pilha duracell dos baixinhos, jamais perderão a paciência. Serão os melhores pais do mundo. Não vão repetir erros dos próprios pais.
Mas criar filho direito dá um canseira danada. Tem que acompanhar a lição, comparecer às reuniões da escola, ao jogo de futebol, à apresentação de balé, ensinar as diferenças entre certo e errado, ser carinhoso na medida certa e duro na hora que importa. Abraçar, beijar e fazer as vontades, mas também dar bronca e pôr de castigo. Mesmo que seja para depois morrer de culpa com medo de ter exagerado.
Até completar uns dez anos, crianças são sempre maravilhosas. Enquanto descobrem o mundo, fazem as perguntas mais desconcertantes. Aos 13, são perfeitos pestinhas. Mas como somos seus heróis, perdoamos todas as travessuras e malcriações.
Porque o pior está por vir. E o pior – argh! – atende pelo nome de adolescência. Aquele que, até outro dia, era nosso doce bebê se recusa a tomar banho. Se for menina, ao contrário, não sai da frente do espelho. Passa o dia trancado no quarto, com o som tão alto que é capaz de o vizinho chamar a polícia. Não desgruda da turma, que a qualquer momento pode invadir a casa e esvaziar a geladeira.
Nosso ex-doce bebê fica horas na internet. A conta do celular pode sustentar uma família inteira. Só veste o que quer. E o que quer nos causa arrepios. Acha que é dono do próprio nariz. E – por que não? – do mundo. Aquela criança esperta, que aprendia depressa, agora passa de ano aos trancos e barrancos. Há sempre alguma coisa mais interessante para fazer do que estudar. Não nos convencem. Batemos pé firme: a escola é que vai garantir o seu futuro.
Os perigos estão sempre rondando e tiram o sono de qualquer pai: drogas, bebida, violência, internet, sexo precoce, gravidez fora de hora. O adolescente, ao contrário, não tem medo de nada. Acha que é imortal como um super-herói. E que problemas só acontecem com os outros. Tenta agir como adulto e adora conversar, desde que não seja com um adulto de verdade. O que nos exclui de qualquer espécie de diálogo.
Ricos ou pobres, trabalhamos feito loucos para pagar suas contas. Seja para alimentar aquela fome insaciável ou comprar material escolar, o tênis que ficou pequeno, a calça da moda, o videogame, o cinema, a balada e até o presente do ficante (porque hoje eles não namoram: ficam).
Ultrapassados como um carro fabricado nos anos 60, passamos a ser os piores pais do mundo. Somos criticados pelo modo de falar e vestir. Nossas opiniões já não têm valor. Conselhos, então… Humilhados, ainda temos de pedir ajuda aos espertinhos para ligar o DVD, gravar a agenda no celular e acessar a internet emperrada.
Até que encontram trabalho ou vão para a faculdade. Se tivermos sorte, as duas coisas juntas. E assumem novos ares. Conquistam vitórias no emprego. Mudam de cidade ou só aparecem para dormir. A casa fica vazia. Silenciosa.
Um dia aparecem com alguém que fazem questão de apresentar. Os pais se entreolham como se, naquele momento, percebessem que seu bebê virou adulto de verdade. Se tudo correr bem, mais dia, menos dia, ele vai casar ou morar junto, não importa. O que importa mesmo é quando ele anuncia que vai ser pai. O que nos transforma imediatamente em avós.
E, como todos sabem, avós são infinitamente melhores que pais.
De uma hora para outra, meninos e meninas danados assumem o ar severo de quem se ocupa em criar a próxima geração. E próxima geração quer dizer bebês que trocam o dia pela noite, têm dor de barriga, de dente, de ouvido, fazem cocô nos colos mais impróprios. Encantados com o milagre de gerar a vida, nossos filhos prometem ser os melhores pais do mundo. E de fato são. Iguaizinhos a nós, que fomos iguaizinhos aos nossos pais, que foram iguaizinhos aos nossos avós, que foram iguaizinhos…
E nós, velhos caretas? O que podemos fazer, se o mundo muda o tempo todo, mas continua sempre igual?
Bem, disfarçando um sorrisinho irônico, abrimos a porta de casa e deixamos aqueles deliciosos pestinhas fazer todas as diabruras e travessuras que desejarem.

Crônica publicada na Coop Revista - Maio / 2.007

criado por sauerb    11:02 — Arquivado em: Sem categoria

22/8/08

PARE O MUNDO QUE EU QUERO DESCER

PARE O MUNDO QUE EU QUERO DESCER
Lucia Sauerbronn

Troco de roupa falando ao telefone, escovo os dentes calçando os sapatos, tomo café lendo o jornal e termino a maquilagem enquanto espero o semáforo abrir. Fujo do trânsito por ruas alternativas escolhendo caminhos entre os buracos. De longe, distingo uma vaga. Suspiro. O carro da frente chega antes. Para conseguir estacionar, preciso dar três voltas no quarteirão.
No trabalho, falo ao telefone lendo e-mails, atendo pessoas guardando pastas, rabisco anotações para não esquecer de fazer o que deveria ter feito ontem. Penso em meia dúzia de coisas ao mesmo tempo, falo três de uma vez só, atropelo os passos, esbarro nas cadeiras e derrubo café nos documentos que deveria assinar.
Termino o relatório que levei horas para fazer. Fecho a tela sem salvar o trabalho. Escarafuncho, desesperada, o computador, tentando restaurar o texto perdido. Inútil. Recomeço do zero.
Saio voando para casa. Estou atrasada, é claro. Por isso, o almoço vai sair mais tarde. A empregada está com problemas pessoais e pede ajuda. Fico pouco em casa, é ela quem resolve tudo, me sinto em dívida. Dou atenção, procuro ajudar. Depois do papo, mais aliviada, ela emenda: a despensa está vazia, é hora de fazer as compras. E me estende a lista.
Nem bem sento à mesa, o telefone toca. Meu marido reclama: os amigos sabem que só me encontram em casa nesses poucos minutos em que deveria estar com ele. Engulo o almoço frio e a cara feia da família, que já está na sobremesa.
Meu pai protesta: há uma semana não apareço. Telefono todos os dias, culpa de filha é de doer o coração e tirar o sono. Quem sabe, amanhã, depois do trabalho…
Ainda bem que tenho a tarde pela frente. Ah, as belas tardes de outono, com sol e brisa gostosa, tardes tão boas para andar a pé, olhar as pessoas, chutar pedras no caminho. Mas à tarde tem reunião no escritório, o projeto que precisa ser entregue hoje, o texto que ainda não concluí, as contas para pagar.
Ah!, e o pintor que vai fazer o orçamento do serviço lá de casa, não posso esquecer. Falando em esquecer, não é hoje o aniversário da Sueli? Preciso mandar flores. Não, melhor comprar um presente, dar um pulo até lá, levar um abraço. Mas hoje à noite tem reunião de condomínio, como é que fui aceitar essa incumbência? No mesmo horário da aula de francês, mon Dieu, c’est terrible!, a terceira falta deste mês. E eu que pensava chegar em casa cedo e terminar de ler aquele livro.
Não sei o que deu nas cabeças da mulheres, trocar a doce vidinha doméstica por essa alucinação toda. Às vezes, sinto vontade de jogar tudo para o alto e curtir o lar, doce lar. Ter tempo de olhar vitrines, ir ao cabeleireiro. Mandar tudo às favas e pegar um cineminha no meio da semana.
Mas agora é tarde. A gente assume compromissos… Falando nisso, não sei por que estou aqui divagando, essa crônica deveria ter sido entregue ontem.
À beira de enlouquecer, acho que seria mais fácil se o dia tivesse 36 horas. Mas não acredito que fosse adiantar. Tenho mania de querer abraçar o mundo. Iria pedir meia hora a mais.
Nessa neurose de querer me superar, não perdôo, busco a perfeição: um dia ainda chego antes de mim.

Crônica publicada na Coop Revista - Junho / 2.007

criado por sauerb    11:16 — Arquivado em: Sem categoria
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