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Oba! 
criado por sauerb
09:45:29
Novos problemas, velhos remédios
Lucia Sauerbronn
Não anda nada fácil manter o bom humor. Mas a vida continua e a gente não deve se deixar abater, apenas aguardar os acontecimentos. Todo mundo sabe que o melhor forma de combater energia negativa é ter atitudes positivas, que contagiam o ambiente e melhoram o astral. Até porque bom humor faz bem para a saúde. Do corpo, do coração e da alma.
A medicina, que se desenvolveu muito nas últimas décadas, descobriu a cura para quase todos os males. Mas ainda não inventou uma pílula do bom humor. Já pensou? No dia em que a gente acordasse com cara de poucos amigos, bastaria tomar uma dose para sair dando pulinhos de alegria.
Antigamente, quando havia remédio para pouca coisa e ir ao médico era um luxo, o jeito era apelar para a sabedoria popular. Toda avó sabia uma receita infalível para resolver qualquer problema. Lumbago, espinhela caída, sapinho, bicho do pé, falta de dinheiro e até dor de cotovelo se curava com simpatia.
Ninguém nunca compreendeu como as simpatias funcionam, mas que dão certo, ah!, isso dão. Por isso, enquanto a ciência não inventa a fórmula da pílula da felicidade, resolvi fazer uma pesquisa sobre o assunto. Descobri que não existe simpatia que devolva o bom humor. Mas achei algumas que servem perfeitamente para dar fim àqueles pequenos inconvenientes que acabam com a paciência de qualquer cristão. Ou muçulmano.
Se, por exemplo, o noticiário da TV fez você perder a fome, mastigue umas folhas de salsa. Ou, ao contrário, o assunto lhe deu azia e má digestão, cheire um pouco de vinagre e tome chá de losna. Perdeu a voz de tanto de torcer pelo gol – que não saiu – nas eliminatórias da Copa? Coma cenouras cozidas no mel. Anda com medo de afundar no mar de lama? Pois saiba que esfregar cinza quente nas costas protege contra afogamentos. Caso tenha resolvido afogar as mágoas num copo de bebida, a solução é outra: ressaca se cura pingando no ouvido gotinhas de limão.
Não há nada que estrague tanto o humor quanto passar a noite em claro. Se você não conseguir dormir de preocupação, nada de ficar rolando na cama. Ponha um saquinho com farinha de trigo dentro do travesseiro e, para garantir um sono de bebê, bata antes meio chuchu cru com água e açúcar e tome tudo de uma vez. Conseguiu dormir, mas teve pesadelos? Mantenha uma tesoura aberta debaixo do colchão. Em tempo: se o que está atrapalhando seu sono é o ronco do parceiro, não precisa se irritar com o coitado. Chame São Roque que o barulho pára na hora.
Agora, se a insônia é causada por problemas financeiros, dinheiro não vai faltar se você colocar moedas debaixo de uma estatueta de Buda, ou guardá-las dentro da caixa de alfinetes. Arrume também um vaso de uma planta chamada dinheiro-em-penca e cuide dele com muito carinho.
Depois não diga que não avisei. Quando o dinheiro começar a entrar, pode atrair mau-olhado. Nesse caso, apele de novo para o poder das plantas: tenha em casa trevo de quatro folhas, arruda e comigo-ninguém-pode, que dão sorte e cortam quebranto. Se um deles minguar, atenção: é caso de olho gordo. Passe a andar com três dentes de alho no bolso. Aí o benefício é duplo, todo mundo sabe que alho espanta vampiro.
Medo de ser assaltado? Ofereça três moedas aos gnomos e esconda debaixo de um móvel na entrada da casa ou sob o tapete do carro. Aproveite para fortalecer seu anjo da guarda, acendendo uma velinha para ele sempre que puder.
Até os males do coração têm remédio com simpatia. Quem acredita em Santo Antonio que o diga. Para arrumar namorado, escreva numa fita azul o nome da pessoa e conte sete estrelas no céu – sem apontar, senão dá verruga. Depois coloque a fita nos pés da imagem do santo e faça seu pedido. Santo Antonio sofre, mas também adora dar uma mãozinha em reconciliações: amarre sete fitas coloridas na sua estátua e vire-a de cabeça para baixo. E não desvire antes que vocês dois sejam confundidos com um casal de pombinhos.
Você pode achar que tudo isso é uma montanha de asneiras. Mas não custa nada tentar. Se não fizer bem, mal não faz. Como diria minha avó espanhola, “yo no creo en brujas pero que las hay las hay”.
Por outro lado, é bom lembrar que as simpatias são uma tradição brasileira, fazem parte do folclore de um País que respeita todas as religiões e credos. Exatamente a tolerância que falta para que povos tão diferentes como afegãos ou irlandeses conquistem a paz. O que me faz pensar que talvez não haja mesmo remédio nem simpatia que cure mau humor. Basta ser simpático.
Crônica publicada na Coop Revista - Novembro / 2.008

criado por sauerb
08:21:07
Dieta radical 
criado por sauerb
08:55:28
Os meninos crescem*
Lucia Sauerbronn
Nem sei como tive coragem de levar para casa aquele embrulhinho de dois quilos, pele muito branca e a cabeça coberta por uma penugem ruiva. Na mesma noite, assustei com seu choro e tropecei no moisés que estava no chão, ao lado da cama. Ele rolou e ganhou uma marquinha roxa na bochecha. Ansiosa, não consegui amamentá-lo: na primeira semana, comprei uma mamadeira. Quando teve dor de ouvido, queimei sua orelha com óleo quente. Estabanada, deixei ele cair do carrinho algumas vezes. Como mãe, eu tinha tudo para dar errado. Apesar de mim, ele sobreviveu.
Foi um menino danado. Mas, fora o anjo da guarda, não deu trabalho para quase ninguém. Exceto os bombeiros, chamados às pressas quando ele e o irmão puseram fogo na casa.
Com o irmão, por sinal, fez uma parceria engraçada. Os dois, tão diferentes em personalidade e interesses, cresceram brigando, reclamando um do outro e se protegendo, como amigos de verdade. Moravam no sótão entre gibis, brinquedos e muita coisa espalhada pelo chão, território em que adulto só pisava como visita.
Determinado, quando entrava num jogo era para ganhar. O que nem sempre acontecia, como aquela vez em que apanhou no judô de uma menina maior do que ele. Aos oito anos resolveu ser independente. Fabricou bijuterias e armou uma barraquinha em frente de casa, no dia da feira. A avó acabou comprando tudo, e ele guardou o dinheiro no cofrinho. Montou uma bicicleta peça por peça. Fez seu próprio skate com a ajuda do avô. Sem pedir nada em troca, em dia de eleição escolhia um candidato e saía distribuindo santinho. Depois acompanhava a apuração, para conferir o resultado.
Tinha medo do escuro, e às vezes acordava de um pesadelo banhado de suor. Apesar disso, aos 17 anos enfrentou um ano inteiro de intercâmbio, morando com famílias desconhecidas fora do país. Mais tarde, foi estudar inglês por conta própria. Arrumou emprego de garçom num hotel em que a chefia americana não se dava com os funcionários mexicanos. Falando as duas línguas, construiu uma ponte entre eles. Ganhou prêmio como empregado do ano, mas chegou a morar no bairro barra pesada do Bronx, até que as torres gêmeas caíram. Tive de apelar à velha chantagem emocional de mãe para obrigá-lo a voltar para casa.
Chegou ao Brasil em meio à crise de 11 de setembro e não conseguia emprego. Publicitário, encontrou um jeito criativo de fazer propaganda de si mesmo: mandou imprimir um currículo do seu tamanho e, vestido de homem-currículo, circulou pela avenida Paulista. Veio até televisão.
Mas nem tudo foram flores. Não foi aluno dos mais brilhantes; acordava de mau humor para ir para a escola e passava de ano raspando. Nervosinho, um dia saiu de casa depois de brigarmos feio. Enquanto eu passava a noite falando com a polícia, ele dormia sossegado na casa da avó, proibida de me avisar... Com o pai também batia de frente, testando forças para se impor como adulto. Mas a cara feia durava pouco. Logo estavam torcendo juntos no futebol ou na fórmula 1.
O sem-vergonha aprontou das suas. Bateu carro, tomou porre, foi baladeiro, namorador. Até o dia em que reencontrou a velha paixão da escola e pediu a moça em casamento, com direito a igreja, padre, vestido de noiva.
Passei semanas escolhendo belas músicas clássicas para cada momento da cerimônia. Para minha surpresa, entrei na igreja de braço dado com meu filho ao som de Missão Impossível. Assim como os convidados, não pude segurar o riso. Apesar da pose e da seriedade do momento, aquele homem de terno escuro continuaria a ser eternamente meu menino arteiro e criativo. Recebeu a noiva no altar, trocaram alianças, juraram amor eterno, prometeram fidelidade. Estavam felizes.
Quando o vi deixar a igreja levando pela mão a mulher que escolheu para dividir o futuro, fiquei orgulhosa, mas preocupada: se fui uma mãe atrapalhada, como é que iria me comportar como sogra?
Minha nora é esquecida, agitada, avoada, desastrada e faz dez coisas ao mesmo tempo. Dizem que os homens procuram uma esposa parecida com a mãe. Sosseguei: acho que vamos nos dar bem.
* Os meninos crescem, título emprestado do livro do escritor Domingos Pellegrini.
Crônica publicada na Coop Revista - Outubro / 08

criado por sauerb
10:55:21
Memória virtual 
criado por sauerb
08:31:49